O que é a Alodinia e a Hiperalgesia? Simplificando a Sensibilização Central

 

A Dor que Excede o Dano Tecidual

No contexto da dor crônica, é comum que a intensidade da dor relatada pelo paciente não corresponda mais ao dano tecidual real. O que era para ser um sistema de alarme protetor se torna um sistema hipersensível, disparando em resposta a estímulos inócuos ou exagerando a resposta a estímulos dolorosos. Este fenômeno é a Sensibilização Central, e suas manifestações clínicas mais claras são a Alodinia e a Hiperalgesia.
Entender esses conceitos é fundamental para o Osteopata Científico, pois eles direcionam o tratamento para a modulação do Sistema Nervoso Central (SNC), e não apenas para a periferia.

O Mecanismo da Sensibilização Central

A Sensibilização Central é um aumento da excitabilidade dos neurônios nas vias nociceptivas do SNC (medula espinhal e cérebro). É uma forma de plasticidade neural onde o sistema de dor se torna mais eficiente em transmitir e processar sinais de dor, mesmo na ausência de estímulos periféricos intensos [1].
É como se o "volume" do sistema de dor fosse permanentemente aumentado, e o "limiar" para disparar o alarme fosse drasticamente reduzido.

1. Alodinia: A Dor Inesperada

A Alodinia é definida como a dor causada por um estímulo que normalmente não provoca dor [2].
CaracterísticaDescriçãoExemplo Clínico
EstímuloNão nociceptivo (inócuo)Toque leve, pressão suave, temperatura amena, o peso da roupa.
RespostaDor intensaO paciente sente dor ao pentear o cabelo ou ao ser tocado levemente.
MecanismoOcorre um cross-talk (cruzamento) de vias neurais, onde neurônios que normalmente processam o toque (não doloroso) passam a ativar as vias de dor.
A Alodinia é um sinal claro de que o sistema nervoso está em um estado de hiperexcitabilidade, interpretando o toque seguro como uma ameaça.

2. Hiperalgesia: A Dor Exagerada

A Hiperalgesia é definida como uma resposta exagerada a um estímulo que é normalmente doloroso [2].
CaracterísticaDescriçãoExemplo Clínico
EstímuloNociceptivo (doloroso)Uma picada, uma pressão moderada, um movimento que causa dor.
RespostaDor desproporcionalUma dor que seria 3 em uma escala de 10 é percebida como 8 ou 9.
MecanismoOcorre uma amplificação do sinal de dor no SNC, devido à maior liberação de neurotransmissores excitatórios e à maior sensibilidade dos receptores neurais.
A Hiperalgesia demonstra que o sistema de alarme não apenas dispara facilmente, mas também reage de forma desproporcional à intensidade do estímulo.

A Estratégia do Osteopata Científico

O tratamento da Sensibilização Central não se concentra em "ajustar" a estrutura, mas em dessensibilizar o sistema nervoso. A abordagem deve ser multifacetada e baseada em evidências:
1.Educação em Neurociência da Dor (END): Explicar ao paciente o que está acontecendo com seu sistema nervoso é a primeira e mais poderosa intervenção. A compreensão reduz o medo e a catastrofização [3].
2.Exposição Gradual: Utilizar o movimento e o toque de forma progressiva e segura. Para a Alodinia, pode-se começar com texturas suaves e, gradualmente, aumentar a intensidade do estímulo (dessensibilização tátil). Para a Hiperalgesia, o movimento deve ser graduado, sempre dentro de um nível de dor tolerável, para "recalibrar" o sistema.
3.Terapia Manual como Modulador: A Terapia Manual (mobilizações e manipulações) deve ser utilizada como um potente input sensorial para modular o SNC, reduzindo a hiperexcitabilidade e promovendo um estado de segurança.
Ao reconhecer a Alodinia e a Hiperalgesia como sinais de Sensibilização Central, o Osteopata Científico adota uma abordagem que trata a pessoa, e não apenas o tecido, focando na neuroplasticidade para restaurar a função e a qualidade de vida.

Referências

1.Woolf CJ. Central sensitization: implications for the diagnosis and treatment of pain. Pain. 2011;152(3 Suppl):S2-15.
2.Loeser JD, Treede RD. The International Association for the Study of Pain (IASP) definition of pain: an update. Pain. 2008;137(3):473-6.
3.Moseley GL, Butler DS. Explain Pain. 2nd ed. Adelaide: Noigroup Publications; 2017.

Escrito por

Prof Leonardo Nascimento, Ft Msc DO PhD
Fisioterapeuta
Osteopata Pós‑graduado em Fisioterapia Ortopédica e Desportiva pela UNICID/SP
Especialista em Terapia Manual e Postural pela Cesumar/PR
Especialista em Osteopatia pela Universidade Castelo Branco/RJ
Osteopata Certificado pela Escola de Madrid
Professor da Escola de Madrid Internacional Mestre em Ciências da Reabilitação – USP
Diplomado em Osteopatia pela SEFO (Scientific European Federation Osteopaths)
Doutor em Neurociências e Comportamento - FMUSP
Estudioso da área de palpação e sensibilidade manual tátil no Laboratório de Fisioterapia e Comportamento na Universidade de São Paulo – USP
Colaborador do DO‑Touch (American Osteopathic Association)
Coordenador de Grupos de Pesquisa da Escola de Madrid Internacional
Host do Podcast Osteopatia Científica Revisor de Periódicos de Fisioterapia e Osteopatia

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