A Linguagem da Cura: Como Falar sobre Dor Crônica com seu Paciente
A Palavra como Intervenção Terapêutica
No tratamento da dor crônica, a ferramenta mais poderosa do profissional de saúde não é a técnica manual mais sofisticada, mas sim a linguagem. A forma como o diagnóstico é comunicado, o prognóstico é apresentado e a dor é explicada pode ser o divisor de águas entre a recuperação e a cronificação. A Prática Baseada em Evidências (PBE) nos ensina que a comunicação é, em si, uma intervenção terapêutica.
Estudos demonstram que a linguagem utilizada pelo clínico tem um impacto direto nas crenças, no medo-evitação (fear-avoidance) e na catastrofização do paciente, fatores que são amplificadores da dor [1].
A Iatrogenia da Linguagem Estruturalista
O modelo estruturalista, que domina a formação tradicional, leva ao uso de termos que, embora descritivos, são altamente iatrogênicos no contexto da dor crônica.
| Termos Iatrogênicos (Ameaça) | Crença Reforçada no Paciente |
| "Desgaste", "Coluna de Velho" | O corpo é frágil e está se deteriorando. |
| "Hérnia Grave", "Bloqueio" | A dor é causada por um dano estrutural que precisa ser "consertado" externamente. |
| "Instabilidade", "Fora do Lugar" | O movimento é perigoso e deve ser evitado. |
Ao usar esses termos, o profissional, inadvertidamente, reforça a crença de fragilidade e a dependência de intervenções passivas, minando a autoeficácia do paciente. O paciente sai do consultório com um medo maior de se mover, e o medo é um dos maiores preditores da persistência da dor [2].
A Linguagem da Neurociência: Segurança e Resiliência
A comunicação eficaz na dor crônica deve ser baseada na Educação em Neurociência da Dor (END). O objetivo é substituir a linguagem da ameaça pela linguagem da segurança e da resiliência.
O foco deve ser transferido da estrutura para o Sistema Nervoso Central (SNC). O profissional deve explicar que:
1.A dor é real, mas não significa dano: A dor crônica é um alarme superprotetor do cérebro, que se tornou hipersensível. O tecido já se curou, mas o sistema de alarme continua disparando.
2.O corpo é forte e adaptável: Termos como "resiliência", "força", "sensibilidade" e "proteção" devem substituir "fragilidade" e "desgaste".
3.O movimento é seguro e terapêutico: O exercício não é perigoso; é a forma mais eficaz de dessensibilizar o sistema nervoso e reprogramar o alarme.
A explicação de que a dor é um fenômeno de processamento central, e não de dano periférico contínuo, é o primeiro passo para reduzir a catastrofização e aumentar a autoeficácia do paciente [3].
O Teste da Linguagem na Prática Clínica
Ao se deparar com achados de imagem (como uma ressonância magnética com alterações degenerativas), o Osteopata Científico deve neutralizar a ameaça:
Em vez de: "Sua ressonância mostra uma hérnia que está pressionando o nervo, por isso você tem que ter muito cuidado."
Diga: "A ressonância mostra alterações comuns para a sua idade, que encontramos em muitas pessoas sem dor. O que vamos tratar é a hipersensibilidade do seu sistema nervoso, e não a imagem. Seu corpo é forte, e o movimento é o que vai ajudar a acalmar esse alarme."
A linguagem da PBE empodera o paciente, transforma o medo em ação e o torna o agente ativo de sua própria recuperação.
Referências (Estilo Vancouver)
1.Darlow B, Dowell A, Baxter GD, et al. The enduring impact of what clinicians say to people with low back pain. Eur J Pain. 2015;19(9):1318-1326.
2.Leeuw M, Goossens ME, Linton SJ, et al. The fear-avoidance model of musculoskeletal pain: current state of scientific evidence. J Behav Med. 2007;30(1):77-94.
3.Moseley GL, Butler DS. Explain Pain. 2nd ed. Adelaide: Noigroup Publications; 2017.
Assinatura
Prof Leonardo Nascimento, Ft Msc DO PhD
Fisioterapeuta
Osteopata
Pós‑graduado em Fisioterapia Ortopédica e Desportiva pela UNICID/SP
Especialista em Terapia Manual e Postural pela Cesumar/PR
Especialista em Osteopatia pela Universidade Castelo Branco/RJ
Osteopata Certificado pela Escola de Madrid
Professor da Escola de Madrid Internacional
Mestre em Ciências da Reabilitação – USP
Diplomado em Osteopatia pela SEFO (Scientific European Federation Osteopaths)
Doutor em Neurociências e Comportamento - FMUSP
Estudioso da área de palpação e sensibilidade manual tátil no Laboratório de Fisioterapia e Comportamento na Universidade de São Paulo – USP
Colaborador do DO‑Touch (American Osteopathic Association)
Coordenador de Grupos de Pesquisa da Escola de Madrid Internacional
Host do Podcast Osteopatia Científica
Revisor de Periódicos de Fisioterapia e Osteopatia
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