Manipulações Vertebrais para Dor Lombar Crônica: O Que Diz a Revisão Cochrane?

 A manipulação vertebral (SMT) é uma intervenção amplamente utilizada por fisioterapeutas, quiropraxistas e osteopatas no tratamento da dor lombar crônica. Mas qual é a real eficácia dessa abordagem? A revisão Cochrane publicada em 2026 fornece uma análise rigorosa e atualizada que ajuda a responder essa pergunta com base em evidências científicas de alta qualidade.

Objetivo da Revisão

A revisão teve como objetivo avaliar os benefícios e malefícios da SMT comparada a:

  1. Placebo ou terapia simulada,

  2. Nenhum tratamento,

  3. Outras terapias conservadoras (como exercícios, educação ou medicamentos).

Foram incluídos 61 ensaios clínicos randomizados com milhares de pacientes adultos com dor lombar crônica, excluindo estudos que focavam exclusivamente em ciática


Principais Achados

A revisão analisou os principais desfechos: dor, incapacidade funcional e eventos adversos. Os resultados foram agrupados conforme o tipo de comparação:

1. SMT vs. Placebo/Sham

  • Dor (1 mês): Redução muito pequena (MD: -7,01 em escala 0–100), com evidência de qualidade muito baixa.

  • Função (1 mês): Redução média (MD: -2,1 pontos na RMDQ), também com evidência muito baixa.

  • Eventos adversos: Poucos eventos graves relatados; eventos leves (como dor local) foram comuns, mas passageiros


2. SMT vs. Nenhum tratamento

  • Dor (1 mês): Melhora moderada (MD: -13,99), mas a certeza da evidência ainda é muito baixa, devido à alta heterogeneidade e risco de viés


3. SMT vs. Outras terapias conservadoras

  • Dor (1 mês): Diferença pequena (MD: -4,72), evidência de baixa qualidade.

  • Função (1 mês): Melhora discreta (MD: -1,18 na RMDQ), também com evidência de baixa qualidade.

  • Eventos adversos: Nenhum evento grave atribuído à SMT; os efeitos colaterais menores foram comuns, mas não graves


Avaliação da Qualidade das Evidências (GRADE)

Grande parte das evidências foi considerada de baixa ou muito baixa qualidade, principalmente por:

  • Alto risco de viés (cegamento inadequado, seleção dos participantes),

  • Heterogeneidade estatística (I² alto),

  • Diferença nos tipos de manipulações e grupos controle utilizados.

O Que Isso Significa na Prática?

Apesar da popularidade da SMT, esta revisão mostra que seus efeitos benéficos sobre dor e funcionalidade são pequenos e incertos. A SMT pode ser considerada como parte de um plano multimodal de reabilitação, mas não deve ser vendida como uma intervenção milagrosa ou superior às demais.

Em especial, quando comparada a outras terapias conservadoras (como exercícios e educação), a SMT não apresenta vantagens clinicamente relevantes.

Conclusão

A SMT pode trazer benefícios modestos para algumas pessoas com dor lombar crônica, mas sua eficácia ainda é limitada pelas evidências de baixa qualidade. A escolha por utilizá-la deve ser individualizada, baseada na preferência do paciente, contexto clínico e sempre acompanhada de educação, exercício e abordagem biopsicossocial.

Referência:

de Zoete A, Innocenti T, Petrozzi MJ, van Middelkoop M, Assendelft WJJ, de Boer MR, van Tulder MW, Rubinstein SM. Spinal manipulative therapy for adults with chronic low back pain. Cochrane Database Syst Rev. 2026;1:CD008112. doi:10.1002/14651858.CD008112.pub3.

Prof Leonardo Nascimento, Ft Msc DO PhD
Fisioterapeuta
Pós-graduado em Fisioterapia Ortopédica e Desportiva pela UNICID/SP
Especialista em Terapia Manual e Postural pela Cesumar/PR
Especialista em Osteopatia pela Universidade Castelo Branco/RJ
Osteopata Certificado pela Escola de Madrid
Professor da Escola de Madrid Internacional
Mestre em Ciências – USP
Diplomado em Osteopatia pela SEFO (Scientific European Federation Osteopaths)
Doutor em Neurociências e Comportamento - FMUSP
Estudioso da palpação e sensibilidade manual tátil – USP
Colaborador do DO-Touch - AOA
Coordenador de Grupos de Pesquisas da Escola de Madrid Internacional
Host do Podcast Osteopatia Científica
Revisor de Periódicos de Fisioterapia e Osteopatia

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