Exercício Físico para Dor Lombar Inespecífica: Evidência, Efeitos e Limites
A dor lombar continua sendo um dos grandes desafios da saúde pública. Ela afeta milhões ao redor do mundo, sendo uma das principais causas de incapacidade, absenteísmo e sofrimento crônico. No meio de tantas abordagens — desde manipulações vertebrais até pílulas mágicas — surge uma pergunta recorrente: o exercício físico realmente funciona para tratar dor lombar inespecífica?
A resposta mais embasada até agora vem da Cochrane Database, com a revisão sistemática de Hayden et al. (2021), que analisou 249 ensaios clínicos randomizados e mais de 24 mil participantes, buscando elucidar o impacto do exercício sobre dor, função e retorno ao trabalho.
🧠 O que foi estudado?
A revisão incluiu apenas ensaios clínicos randomizados que compararam exercícios com:
Nenhuma intervenção,
Tratamento usual,
Intervenções passivas,
Ou outras formas de exercício.
Foram considerados participantes adultos com dor lombar inespecífica, excluindo causas específicas como hérnia discal com radiculopatia severa, fraturas ou espondilite anquilosante.
📊 Principais Resultados
Redução da dor: Os exercícios mostraram efeito pequeno a moderado em comparação ao não tratamento ou tratamento usual. A diferença média padronizada foi de -0,32 para dor em curto prazo (até 3 meses), indicando melhora leve, mas estatisticamente significativa.
Melhora da função: Também houve um efeito pequeno na funcionalidade, o que sugere que o exercício não apenas reduz dor, mas também melhora a capacidade de realizar tarefas diárias.
Retorno ao trabalho: Poucos estudos avaliaram esse desfecho diretamente, mas os resultados indicaram um potencial benefício modesto.
Exercícios supervisionados foram mais eficazes do que os realizados de forma autônoma.
🧪 Crítica Metodológica
Apesar da robustez da amostra, alguns pontos metodológicos limitam a generalização dos achados:
A heterogeneidade entre os estudos foi alta. Isso significa que os tipos de exercício, duração, frequência e perfil dos pacientes variavam muito, dificultando uma conclusão mais específica sobre "qual" exercício funciona melhor.
Poucos estudos relataram adesão ao programa de exercício, um fator crucial para a eficácia.
Muitos estudos foram classificados com risco de viés incerto ou alto, especialmente na ocultação de alocação e cegamento de avaliadores.
O efeito benéfico, embora significativo, foi modesto em magnitude clínica, levantando a discussão sobre a expectativa realista que devemos criar em torno do exercício.
⚖️ O que isso muda na prática?
Mesmo com limitações, o exercício físico continua sendo uma das intervenções mais seguras, acessíveis e com melhor custo-benefício no tratamento da dor lombar inespecífica. Ele deve ser prescrito de forma personalizada, com supervisão profissional, e inserido dentro de uma abordagem biopsicossocial.
E não, não existe "o melhor exercício" universal. O que existe é o exercício que o paciente consegue manter, tolera bem e que respeita sua fase de dor e funcionalidade.
📌 Conclusão
A ciência é clara: o exercício ajuda — mas com parcimônia. Ele não é cura milagrosa, mas parte de uma abordagem multifatorial que respeita os limites e preferências do paciente. Prescrever movimento com base em evidências, e não em achismos biomecânicos ultrapassados, é o verdadeiro papel do fisioterapeuta moderno.
Referência:
Hayden JA, Ellis J, Ogilvie R, Stewart SA, Bagg MK, Stanojevic S, Samaan Z, Mior S, Wong JJ. Exercise therapy for chronic low back pain. Cochrane Database Syst Rev. 2021 Sep 21;9(9):CD008112. PMID: 34542125.
Prof Leonardo Nascimento, Ft Msc DO PhD
Fisioterapeuta
Osteopata
Pós‑graduado em Fisioterapia Ortopédica e Desportiva pela UNICID/SP
Especialista em Terapia Manual e Postural pela Cesumar/PR
Especialista em Osteopatia pela Universidade Castelo Branco/RJ
Osteopata Certificado pela Escola de Madrid
Professor da Escola de Madrid Internacional
Mestre em Ciências da Reabilitação – USP
Diplomado em Osteopatia pela SEFO (Scientific European Federation Osteopaths)
Doutor em Neurociências e Comportamento - FMUSP
Estudioso da área de palpação e sensibilidade manual tátil no Laboratório de Fisioterapia e Comportamento na Universidade de São Paulo – USP
Colaborador do DO‑Touch (American Osteopathic Association)
Coordenador de Grupos de Pesquisa da Escola de Madrid Internacional
Host do Podcast Osteopatia Científica
Revisor de Periódicos de Fisioterapia e Osteopatia
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