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Alodinia e Hiperalgesia: Por Que o Sistema Nervoso Pode Fazer Doer Até o Que Não Deveria?

Você já atendeu um paciente que sente dor com um simples toque na pele? Ou alguém que reage de maneira extremamente dolorosa a uma pressão que normalmente seria tolerável? Para muitos profissionais, a primeira reação é procurar uma lesão. Será que existe uma inflamação escondida? Um nervo comprimido? Alguma alteração estrutural que não apareceu no exame? Mas existe outra possibilidade:  o sistema nociceptivo pode estar respondendo de maneira amplificada aos estímulos. É nesse contexto que precisamos compreender dois conceitos fundamentais da neurociência da dor: Alodinia e hiperalgesia. Esses fenômenos ajudam a entender por que a intensidade da dor nem sempre corresponde à intensidade de um estímulo ou à extensão de uma lesão. Mas também existe um erro frequente: utilizar esses sinais para diagnosticar automaticamente sensibilização central. Vamos entender o que realmente significam. Primeiro, precisamos entender uma coisa: dor não é igual a lesão Durante muito tempo, a dor foi exp...

A Fáscia Pode Controlar a Inflamação e Regenerar Músculos? O Que a Neuroimunologia Realmente Revela — e o Que Ainda Não Podemos Afirmar

  Durante décadas, a fáscia foi apresentada principalmente como uma estrutura de sustentação, revestimento e transmissão de forças. Mais recentemente, passou a ocupar um lugar de destaque nas explicações sobre dor musculoesquelética, rigidez, movimento e recuperação tecidual. Agora, uma nova fronteira científica começa a ganhar atenção:  as interações entre fáscia, sistema imunológico e regeneração muscular. E, como costuma acontecer quando surge um mecanismo biológico interessante, existe o risco de transformá-lo rapidamente em justificativa para praticamente qualquer intervenção manual. Afinal, quantas vezes já ouvimos que determinada técnica de liberação miofascial é capaz de reduzir inflamação, estimular regeneração, reorganizar colágeno ou acelerar a recuperação muscular? Mas será que essas afirmações já foram demonstradas em seres humanos? Em fevereiro de 2026, van Amstel e colaboradores publicaram o artigo  “Neuroimmune interactions in fascia and myofiber regenerat...

Fáscia reimaginada: ciência nova ou uma nova narrativa para velhas extrapolações?

 Durante muito tempo, a fáscia apareceu nos livros de anatomia quase como o plástico-bolha do corpo humano. Estava lá. Envolvia estruturas. Separava compartimentos. E aparentemente não fazia muita coisa além disso. Nas últimas décadas, essa visão mudou profundamente. Estudos sobre biomecânica, matriz extracelular, mecanotransdução, células do tecido conjuntivo, inervação e propriedades viscoelásticas mostraram que o tecido fascial é biologicamente muito mais interessante do que uma simples embalagem anatômica. Em 2026, John C. Ferguson publicou na  Clinical Anatomy  o artigo: “Fascia Reimagined: A Proposed Mechanometabolic Framework for Understanding Connective Tissue Organization.” E o título já entrega a palavra que talvez seja mais importante de todo o artigo: PROPOSED. Proposto. Não demonstrado. Não comprovado. Não "a ciência finalmente provou que a fáscia controla tudo". Ferguson apresenta um  framework teórico mecanometabólico  para tentar integrar diferen...

Dor Patelofemoral é realmente tão comum? O que uma revisão sistemática revela

Dor na frente do joelho ao subir escadas. Dor durante o agachamento. Incômodo depois de permanecer muito tempo sentado. Dor correndo, saltando ou treinando. Para quem trabalha com fisioterapia musculoesquelética, esse cenário é extremamente familiar. A dor patelofemoral é frequentemente apresentada como uma das condições mais comuns do joelho. Mas existe uma pergunta que parece simples e que, durante muito tempo, não teve uma resposta tão clara: Afinal, quantas pessoas realmente apresentam dor patelofemoral? Smith e colaboradores tentaram responder essa questão em uma revisão sistemática com meta-análise publicada na  PLOS ONE  em 2018. E os números ajudam a entender por que essa condição merece muito mais atenção clínica do que simplesmente procurar uma patela "fora do lugar". O que os pesquisadores fizeram? Os autores realizaram uma revisão sistemática da literatura buscando estudos que investigassem a incidência ou prevalência de dor patelofemoral. Foram incluídos  23 ...

Dentro do cérebro de um atleta de elite: o que a neurociência explica sobre a alta performance?

 O que separa um atleta de elite de uma pessoa comum? Força? Velocidade? VO₂ máximo? Genética? Anos de treinamento? Tudo isso pode participar da equação. Mas existe outra dimensão fascinante da alta performance:  a maneira como o sistema nervoso aprende a perceber, decidir e executar movimentos em ambientes extremamente complexos e sob enorme pressão temporal. Em uma revisão publicada na  Nature Reviews Neuroscience , Yarrow, Brown e Krakauer analisaram o que diferentes áreas da neurociência poderiam explicar sobre o desempenho esportivo de alto nível. E talvez a principal mensagem do artigo seja esta: O atleta de elite não é simplesmente alguém que executa o mesmo movimento com maior perfeição. Ele se torna extremamente eficiente em encontrar soluções para atingir um objetivo. O atleta não controla cada detalhe do movimento Uma das ideias mais interessantes discutidas pelos autores é que movimentos altamente habilidosos não precisam apresentar exatamente a mesma trajetór...

A Fáscia Toracolombar é Diferente em Pessoas com Dor Lombar? O Que a Nova Meta-Análise Mostra — e o Que Ela Não Pode Provar

 A fáscia toracolombar ganhou enorme destaque nos últimos anos. Em cursos, congressos e redes sociais, ela aparece frequentemente como explicação para dor lombar, alteração de movimento, perda de mobilidade, rigidez e até como uma estrutura que precisaria ser “liberada” manualmente. Mas existe uma pergunta mais básica, e cientificamente importante: A fáscia toracolombar realmente apresenta características diferentes em pessoas com dor lombar quando comparada a indivíduos assintomáticos? Em agosto de 2026, Wilke, Debertshaeuser e Konrad publicaram na  Sports Medicine - Open  a revisão sistemática com meta-análise  “Differences in the Thoracolumbar Fascia Between Low Back Pain Patients and Healthy Individuals” . O estudo encontrou diferenças interessantes. Pacientes com dor lombar apresentaram, em média: maior espessura da fáscia toracolombar; maior rigidez; maior ecogenicidade; e uma associação moderada entre maior espessura fascial e maior intensidade de dor. À prime...

Dor Patelofemoral é Realmente Tão Comum? O Que uma Revisão Sistemática Mostra — e o Que os Números Não Devem Fazer Você Concluir

 A dor patelofemoral é uma das condições mais frequentes encontradas na prática clínica musculoesquelética. Ela aparece em adolescentes, corredores, atletas, militares e também na população geral, geralmente associada a dor anterior ou retropatelar provocada por atividades que aumentam a demanda sobre a articulação, como agachar, correr, saltar e subir ou descer escadas. Mas existe uma pergunta epidemiológica fundamental: Quantas pessoas realmente apresentam dor patelofemoral? Em 2018, Smith e colaboradores publicaram na  PLOS ONE  o estudo  “Incidence and prevalence of patellofemoral pain: A systematic review and meta-analysis” , justamente com o objetivo de organizar os números de incidência e prevalência dessa condição em diferentes populações. O estudo se tornou uma referência importante porque mostrou que a dor patelofemoral é extremamente frequente. Mas, ao mesmo tempo, ele também demonstra algo que precisamos ensinar aos alunos e profissionais: números epidemi...