Dor Crônica: O que é e como o Cérebro está envolvido?

 

O Paradigma da Dor: Além da Lesão Tecidual

A dor é, fundamentalmente, uma experiência humana complexa, definida pela Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) como "uma experiência sensorial e emocional desagradável associada a uma lesão tecidual real ou potencial, ou descrita em termos de tal lesão" . No entanto, quando a dor persiste por mais de três meses, ela transcende o modelo puramente biomecânico e entra no domínio da Dor Crônica.
A Dor Crônica não é apenas a dor aguda que se prolongou. É uma entidade patológica distinta, onde a lesão tecidual inicial (se é que houve uma) já se curou, mas o sistema de alarme do corpo permanece ativado. Neste cenário, o foco da investigação e do tratamento deve migrar do tecido periférico para o Sistema Nervoso Central (SNC).

O Cérebro como o "Alarme Defeituoso"

A neurociência da dor revolucionou a compreensão da cronicidade. O cérebro, em sua busca incessante por proteção, pode se tornar hipersensível, um fenômeno conhecido como Sensibilização Central .
A Sensibilização Central é caracterizada por:
1.Alodinia: Sentir dor a partir de um estímulo que normalmente não seria doloroso (ex: o toque leve da roupa).
2.Hiperalgesia: Sentir uma dor desproporcionalmente intensa a um estímulo levemente doloroso.
Em essência, o cérebro aprendeu a sentir dor. As vias neurais que processam os sinais de perigo (nocicepção) se tornaram mais eficientes e responsivas, um exemplo de Neuroplasticidade Mal-Adaptativa. O "alarme de incêndio" cerebral, que deveria tocar apenas na presença de fogo (lesão), agora toca com qualquer fumaça, ou até mesmo sem fumaça nenhuma.

A Crítica ao Modelo Estruturalista na Osteopatia

A persistência da dor crônica é a prova cabal de que a busca incessante por "disfunções somáticas", "bloqueios vertebrais" ou "desalinhamentos" como a única causa da dor é um paradigma obsoleto e, muitas vezes, iatrogênico.
O Osteopata Científico deve reconhecer que:
"A dor crônica não é um problema de entrada (input), mas sim de processamento (throughput) e saída (output) do Sistema Nervoso Central. A manipulação vertebral, por exemplo, não 'coloca o osso no lugar', mas sim fornece um poderoso input de segurança ao SNC, modulando a dor através de mecanismos neurofisiológicos complexos, e não por correção estrutural."
A ênfase em achados de imagem (como hérnias de disco ou degenerações) como a causa da dor crônica é um erro comum que aumenta o medo-evitação (fear-avoidance) e a catastrofização do paciente, piorando o prognóstico .

A Estratégia do Osteopata Científico: Reprogramando o Alarme

O tratamento eficaz da dor crônica, alinhado à Prática Baseada em Evidências (PBE), foca na reprogramação do SNC. O Osteopata Científico utiliza uma abordagem multifacetada, onde a Terapia Manual é apenas uma ferramenta, e não o objetivo final:
Pilar da IntervençãoObjetivoMecanismo Neurofisiológico
Educação em Neurociência da Dor (END)Desmistificar a dor, reduzir a ameaça e o medo-evitação.Redução da Sensibilização Central e do Output de Dor.
Exercício Terapêutico ProgressivoProvar ao cérebro que o movimento é seguro e restaurar a função.Aumento da tolerância ao estresse, liberação de opioides endógenos e neuroplasticidade adaptativa.
Terapia Manual (Manipulação/Mobilização)Fornecer um estímulo sensorial seguro e potente.Modulação da dor via mecanismos descendentes de inibição e ativação de vias táteis.
Abordagem BiopsicossocialEndereçar fatores psicológicos (ansiedade, depressão) e sociais.Redução do estresse e da catastrofização, que são amplificadores da dor.
A Terapia Manual, nesse contexto, é um poderoso analgésico neurofisiológico que abre uma "janela de oportunidade" para que o exercício e a educação (os verdadeiros agentes de mudança a longo prazo) possam ser implementados com sucesso.

Conclusão

A dor crônica é uma doença do Sistema Nervoso Central, e não apenas do tecido. O Profissional de Saúde do Século XXI deve abandonar o modelo estruturalista e abraçar a neurociência da dor.
Se você é profissional, sua missão é educar e empoderar seu paciente, transformando o medo em segurança através do movimento e do conhecimento. Se você é paciente, entenda: sua dor é real, mas ela não significa que seu corpo está danificado. Seu cérebro está apenas sendo superprotetor.
Para uma explicação mais detalhada e visual, assista ao nosso vídeo no YouTube: Dor Crônica: O que é e como o seu CÉREBRO está envolvido.

Referências



Prof Leonardo Nascimento, Ft Msc DO PhD
Fisioterapeuta
Osteopata
Pós‑graduado em Fisioterapia Ortopédica e Desportiva pela UNICID/SP
Especialista em Terapia Manual e Postural pela Cesumar/PR
Especialista em Osteopatia pela Universidade Castelo Branco/RJ
Osteopata Certificado pela Escola de Madrid
Professor da Escola de Madrid Internacional
Mestre em Ciências da Reabilitação – USP
Diplomado em Osteopatia pela SEFO (Scientific European Federation Osteopaths)
Doutor em Neurociências e Comportamento - FMUSP
Estudioso da área de palpação e sensibilidade manual tátil no Laboratório de Fisioterapia e Comportamento na Universidade de São Paulo – USP
Colaborador do DO‑Touch (American Osteopathic Association)
Coordenador de Grupos de Pesquisa da Escola de Madrid Internacional
Host do Podcast Osteopatia Científica
Revisor de Periódicos de Fisioterapia e Osteopatia

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