O que a Ciência Diz sobre Postura e Emoção: A Conexão Bidirecional Corpo-Mente

 

O Fim do Dogma da "Postura Correta"

O conceito de uma "postura ideal" rígida e estática tem sido amplamente desmistificado pela ciência moderna. O corpo humano é dinâmico, e a melhor postura é a próxima postura. No entanto, a ciência tem revelado uma relação fascinante e bidirecional entre a forma como nos posicionamos (postura) e como nos sentimos (emoção). Não se trata de alinhamento estrutural, mas sim de um complexo feedback neurofisiológico.

1. A Postura Influencia a Emoção (Feedback Corporal)

A neurociência e a psicologia social demonstram que a postura não é apenas uma expressão passiva do nosso estado emocional, mas um fator ativo que pode induzir ou modular emoções.
O cérebro está constantemente monitorando os sinais proprioceptivos e interoceptivos do corpo. Quando adotamos certas posturas, o corpo envia sinais que o cérebro interpreta, influenciando o estado afetivo e hormonal.
Postura de Poder (Power Pose): Estudos clássicos demonstraram que a adoção de posturas expansivas e abertas (ombros para trás, peito aberto) pode levar a alterações hormonais e comportamentais. Em sujeitos que adotaram posturas de alta potência, observou-se um aumento nos níveis de testosterona (associada à dominância e confiança) e uma diminuição nos níveis de cortisol (associado ao estresse) [1].
Postura de Submissão/Proteção: Posturas curvadas, com ombros fechados e cabeça baixa, tendem a reforçar sentimentos de impotência, ansiedade e tristeza. O cérebro interpreta essa postura como um sinal de vulnerabilidade ou ameaça, perpetuando um ciclo de afeto negativo.
A intervenção postural, nesse sentido, torna-se uma ferramenta de modulação do estado emocional e do sistema endócrino.

2. A Emoção Influencia a Postura (Reflexo de Proteção)

O inverso também é verdadeiro. Estados emocionais crônicos, como estresse, ansiedade e dor persistente, levam o sistema nervoso a adotar posturas de proteção.
A dor crônica, em particular, ativa o sistema de defesa do organismo. O cérebro, em um esforço para proteger o corpo de uma ameaça percebida, aumenta o tônus muscular em regiões específicas (cervical, ombros, lombar), levando a uma postura mais rígida e encurtada. Essa tensão não é uma "má postura" voluntária, mas um reflexo de proteção neural mediado pelo sistema nervoso autônomo [2].
O tratamento da dor crônica, portanto, não pode se limitar à correção estrutural. Ele deve incluir estratégias para acalmar o sistema nervoso, como a Educação em Neurociência da Dor (END) e o movimento seguro, que sinalizam ao cérebro que a ameaça diminuiu.

A Abordagem do Osteopata Científico

O Osteopata Científico reconhece a postura como um reflexo dinâmico do estado biopsicossocial do indivíduo. A intervenção não visa um alinhamento estético, mas sim a restauração da variabilidade e da segurança do movimento.
IntervençãoObjetivo na Relação Postura-Emoção
Conscientização PosturalAjudar o paciente a reconhecer o feedback corporal e a quebrar o ciclo vicioso de postura-emoção negativa.
Exercício de ExpansãoPromover movimentos que abrem o corpo (mobilidade torácica, extensão), enviando sinais de segurança e confiança ao SNC.
Terapia ManualModular o Sistema Nervoso Autônomo (SNA), reduzindo o tônus de proteção e a hipersensibilidade, permitindo que o corpo adote posturas mais livres e menos ameaçadoras [3].
A postura é um diálogo constante entre o corpo e o cérebro. Ao entender e intervir nesse diálogo, o profissional de saúde pode otimizar não apenas a função física, mas também o bem-estar emocional do paciente.

Referências

1.Carney DR, Cuddy AJC, Yap AJ. Power posing: brief nonverbal displays affect neuroendocrine levels and risk tolerance. Psychol Sci. 2010;21(10):1363-8.
2.Nijs J, Logghe LH, Miller R, et al. Exercise therapy for chronic low back pain: an update on the role of the central nervous system. Eur J Pain. 2016;20(1):1-12.
3.Bialosky JE, Bishop MD, Price DD, et al. The mechanisms of manual therapy in the treatment of musculoskeletal pain: a comprehensive model. Man Ther. 2009;14(5):531-8.

Escrito por

Prof Leonardo Nascimento, Ft Msc DO PhD 
Fisioterapeuta 
Osteopata Pós‑graduado em Fisioterapia Ortopédica e Desportiva pela UNICID/SP 
Especialista em Terapia Manual e Postural pela Cesumar/PR 
Especialista em Osteopatia pela Universidade Castelo Branco/RJ 
Osteopata Certificado pela Escola de Madrid 
Professor da Escola de Madrid Internacional Mestre em Ciências da Reabilitação – USP 
Diplomado em Osteopatia pela SEFO (Scientific European Federation Osteopaths)
Doutor em Neurociências e Comportamento - FMUSP
Estudioso da área de palpação e sensibilidade manual tátil no Laboratório de Fisioterapia e Comportamento na Universidade de São Paulo – USP 
Colaborador do DO‑Touch (American Osteopathic Association)
Coordenador de Grupos de Pesquisa da Escola de Madrid Internacional 
Host do Podcast Osteopatia Científica Revisor de Periódicos de Fisioterapia e Osteopatia

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