Como Mudou o Manejo da Dor Lombar Aguda em 20 anos: O que a Ciência Revela
A dor lombar aguda representa um problema de saúde pública global — incapacitante, frequente e muitas vezes incapaz de ser claramente diagnosticada por exames de imagem. Em 2003 e novamente em 2023, um grupo de pesquisadores no Reino Unido utilizou um mesmo caso clínico fictício (vignette) para comparar como fisioterapeutas, osteopatas e quiropráticos relatam seu manejo da dor lombar aguda. O objetivo? Entender como as práticas profissionais evoluíram ao longo de duas décadas.
🧠 O Estudo em Foco
A pesquisa envolveu dois grandes inquéritos nacionais — um em 2003 e outro em 2023 — aplicando o mesmo cenário clínico a profissionais registrados no Reino Unido. Foram analisadas as respostas de cerca de:
1.758 profissionais em 2003
1.388 profissionais em 2023
entre fisioterapeutas, osteopatas e quiropráticos, avaliando quais intervenções e orientações cada grupo relataram que ofereceria para um paciente com dor lombar aguda inespecífica.
📉 Principais Descobertas
1. Evolução nos Padrões de Manejo
Entre 2003 e 2023, os profissionais mostraram mudanças claras nas recomendações terapêuticas, indicando uma adaptação — ainda que parcial — às diretrizes clínicas internacionais que defendem:
Menos repouso absoluto
Mais promoção de atividade física precoce
Menor dependência de intervenções passivas
Em particular, os osteopatas mostraram a mudança mais evidente nas recomendações de atividade, tornando‑se menos restritivos ao longo do tempo e se aproximando das práticas de quiropráticos em 2023.
🔄 Diferenças entre Profissões
Apesar da convergência, ainda existem diferenças importantes entre fisioterapeutas, osteopatas e quiropráticos. Em ambos os momentos estudados, grande parte dos profissionais relatou práticas que não estavam plenamente alinhadas às diretrizes clínicas modernas, que enfatizam o movimento, a educação em dor e a abordagem biopsicossocial. PubMed
Essa discrepância não é surpreendente: cada profissão possui tradições distintas, modelos de formação e culturas clínicas que influenciam fortemente as escolhas de manejo — mesmo diante de evidências robustas.
💡 O que isso nos Ensina
1. Diretrizes não se traduzem automaticamente em prática
Apesar de diretrizes nacionais e internacionais recomendarem estratégias consistentes para manejo de dor lombar aguda — com foco em atividade, educação e redução de exames desnecessários — essas recomendações ainda não foram adotadas de forma homogênea entre os profissionais.
2. A prática está mudando, mas devagar
A tendência de se afastar de recomendações restritivas de repouso e de usar intervenções ativas é um sinal positivo. No entanto, a velocidade dessa mudança varia conforme a profissão e as tradições de formação clínica.
3. Educação contínua e integração são essenciais
Esses dados ressaltam a importância de educação continuada, olhar crítico sobre evidência científica e colaboração interprofissional. Isso é fundamental para que o manejo da dor lombar — uma das queixas mais prevalentes e custosas da clínica ortopédica — seja mais eficaz e alinhado às melhores práticas disponíveis.
📌 Conclusão
O manejo da dor lombar aguda no Reino Unido evoluiu de 2003 a 2023. Há sinais de convergência entre fisioterapeutas, osteopatas e quiropráticos, e um movimento em direção às recomendações de diretrizes baseadas em evidências. Ainda assim, práticas tradicionais e variações interprofissionais persistem.
O maior desafio, agora, é reduzir a lacuna entre evidência e prática clínica real, aprimorando formação profissional, uso de diretrizes e foco em abordagens que promovam recuperação funcional, atividade precoce e educação alicerçada em ciência — não apenas tradição ou hábito histórico.
Referência
Evans DW, Foster NE, Breen AC, Pincus T, Underwood M, Vogel S. The changing face of acute low back pain management by physiotherapists, osteopaths and chiropractors in the UK: a 20‑year comparison from 2003 to 2023.BMC Musculoskeletal Disorders. 2025;26:887. SpringerLink+1
Prof Leonardo Nascimento, Ft Msc DO PhD
Fisioterapeuta
Osteopata
Pós‑graduado em Fisioterapia Ortopédica e Desportiva pela UNICID/SP
Especialista em Terapia Manual e Postural pela Cesumar/PR
Especialista em Osteopatia pela Universidade Castelo Branco/RJ
Osteopata Certificado pela Escola de Madrid
Professor da Escola de Madrid Internacional
Mestre em Ciências da Reabilitação – USP
Diplomado em Osteopatia pela SEFO (Scientific European Federation Osteopaths)
Doutor em Neurociências e Comportamento - FMUSP
Estudioso da área de palpação e sensibilidade manual tátil no Laboratório de Fisioterapia e Comportamento na Universidade de São Paulo – USP
Colaborador do DO‑Touch (American Osteopathic Association)
Coordenador de Grupos de Pesquisa da Escola de Madrid Internacional
Host do Podcast Osteopatia Científica
Revisor de Periódicos de Fisioterapia e Osteopatia
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