O Mito da Fáscia: Uma Análise Crítica Baseada em Evidências
Na última década, a fáscia foi elevada de um simples tecido de preenchimento a um "órgão místico" capaz de explicar todas as patologias e curar todas as dores. No entanto, quando aplicamos o rigor da Prática Baseada em Evidências (PBE), percebemos que muitas das afirmações amplamente divulgadas carecem de plausibilidade biológica e suporte clínico robusto.
1. A Impossibilidade Mecânica: O Erro de Chaudhry
Um dos pilares das terapias fasciais é a ideia de que o terapeuta pode "alongar" ou "deformar" a fáscia manualmente para liberar restrições. O estudo mais citado para apoiar isso é o de Chaudhry et al. (2008).
- A Falha Metodológica: O estudo utilizou um modelo matemático baseado em dados de 1931 e 1964.
- A Realidade Física: Críticas posteriores demonstraram que, para deformar a fáscia lata em apenas 1%, seria necessária uma força de aproximadamente 852 kg. Nenhuma mão humana gera essa pressão sem causar danos teciduais catastróficos.
- Conclusão PBE: O que sentimos como "liberação" não é a fáscia mudando de forma, mas sim uma resposta neurofisiológica (modulação do tônus via sistema nervoso) e não mecânica.
2. Fáscia como "Órgão Sensorial" vs. "Causa da Dor"
Embora a fáscia seja ricamente inervada, o erro comum é a correlação ilusória: "se dói e tem fáscia, a culpa é da fáscia".
- A Falha nos Estudos: Muitos estudos que promovem a fáscia como causa primária de dor são observacionais ou transversais, que não estabelecem causalidade. A "inflamação da fáscia" vista em exames de imagem muitas vezes não se correlaciona com os sintomas reais do paciente.
- Análise Crítica: A dor é um fenômeno complexo e biopsicossocial. Atribuir a dor exclusivamente a uma "aderência fascial" é um reducionismo que ignora a neurociência moderna da dor.
3. Eficácia Clínica: O Efeito Placebo e a Falta de Superioridade
Revisões sistemáticas recentes mostram que as técnicas fasciais não são superiores a outras formas de terapia manual ou ao exercício.
- Qualidade da Evidência: A maioria dos estudos "pró-fáscia" possui alto risco de viés, amostras pequenas e falta de grupos controle adequados (placebo/sham).
- O "Efeito Contextual": O toque humano, a expectativa do paciente e a narrativa "mágica" da fáscia criam um forte efeito placebo, que é frequentemente confundido com eficácia técnica específica.
Conclusão
A ciência é clara: se você acha que está "alongando" a fáscia com as mãos, você precisaria de quase uma tonelada de força. O que fazemos no consultório é Neurociência, não Engenharia Mecânica. É hora de parar de vender mitos e começar a entregar resultados baseados em biologia real.
Escrito por
Prof Leonardo Nascimento, Ft Msc DO PhD
Fisioterapeuta
Osteopata Pós‑graduado em Fisioterapia Ortopédica e Desportiva pela UNICID/SP
Especialista em Terapia Manual e Postural pela Cesumar/PR
Especialista em Osteopatia pela Universidade Castelo Branco/RJ
Osteopata Certificado pela Escola de Madrid
Professor da Escola de Madrid Internacional Mestre em Ciências da Reabilitação – USP
Diplomado em Osteopatia pela SEFO (Scientific European Federation Osteopaths)
Doutor em Neurociências e Comportamento - FMUSP
Estudioso da área de palpação e sensibilidade manual tátil no Laboratório de Fisioterapia e Comportamento na Universidade de São Paulo – USP
Colaborador do DO‑Touch (American Osteopathic Association)
Coordenador de Grupos de Pesquisa da Escola de Madrid Internacional
Host do Podcast Osteopatia Científica Revisor de Periódicos de Fisioterapia e Osteopatia
Bibliografia Consultada
- Chaudhry H, et al. Three-dimensional mathematical model for deformation of human fasciae in manual therapy. JAOA. 2008.
- Laimi K, et al. Effectiveness of myofascial release in treatment of chronic musculoskeletal pain: a systematic review. Clinical Rehabilitation. 2018.
- Thalhamer C. A fundamental critique of the fascial distortion model and its application in clinical practice. Journal of Bodywork and Movement Therapies. 2018.
- Ajimsha MS, et al. Effectiveness of myofascial release: systematic review of randomized controlled trials. Journal of Bodywork and Movement Therapies. 2015.
- Wilke J, et al. Not merely a protective packing organ? A review of fascia and its force transmission capacity. Journal of Applied Physiology. 2018.
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