A Ciência da Recuperação: Por que o Sono é o seu Melhor Fisioterapeuta
Dormir bem é um clichê da saúde. Mas você já parou para entender por que o sono não é apenas importante, e sim terapêutico? No mundo da reabilitação musculoesquelética, onde se discutem intervenções manuais, exercícios, neuromodulação e gadgets milagrosos, muitas vezes esquecemos do mais antigo e acessível recurso de todos: o sono profundo e restaurador.
Sono e dor: uma via de mão dupla
Estudos como os de Finan et al. (2013) mostram que privação de sono aumenta a sensibilidade à dor, reduz a modulação endógena e sabota a recuperação tecidual. Mas o caminho também é inverso: dor crônica piora a qualidade do sono, criando um ciclo vicioso difícil de quebrar. Isso é especialmente preocupante em quadros de lombalgia crônica, fibromialgia e osteoartrite.
A fisiologia da recuperação
Durante o sono profundo, especialmente nas fases NREM (não-REM), ocorre liberação de hormônio do crescimento, essencial para regeneração muscular e óssea. Além disso, há uma redução da atividade simpática e aumento da atividade parassimpática – ou seja, o sistema nervoso entra em modo de recuperação, com redução de cortisol e inflamação.
Se você pensa em "recuperação ativa", saiba que nada substitui o sono quando se trata de limpar metabólitos, restaurar a homeostase sináptica e consolidar memórias motoras. Em outras palavras: treinar sem dormir é como construir sem cimento.
Sono como preditor de resposta clínica
Na reabilitação contemporânea, ignorar a qualidade do sono é ignorar um preditor de prognóstico. Estudos longitudinais sugerem que pacientes com dor que dormem mal têm piores resultados funcionais, menor adesão à fisioterapia e maior risco de cronificação (Alsaadi et al., 2014).
Por isso, avaliar o sono deveria ser obrigatório na triagem clínica. Ferramentas como o Pittsburgh Sleep Quality Index (PSQI) são simples, validadas e altamente informativas.
A cereja do bolo? Cérebro em modo reparo
Neuroimagem mostra que durante o sono ocorrem reorganizações importantes no córtex somatossensorial e pré-frontal, regiões intimamente ligadas à percepção da dor e ao controle motor. Não é à toa que pessoas com insônia têm mais "catastrofização", pior coping e disfunções executivas.
Ou seja: o sono também atua na reabilitação cognitiva e emocional, ajudando a consolidar o aprendizado motor e reduzir a resposta de ameaça à dor.
Conclusão: Antes de prescrever, pergunte como o paciente dorme
Na era da fisioterapia baseada em evidências, o sono precisa sair do rodapé da anamnese e ocupar o topo da hierarquia de fatores moduladores da dor e da recuperação. Seu paciente não melhora? Talvez ele só precise dormir. E sim: é possível prescrever higiene do sono com base científica.
Dormir não é luxo. É fisioterapia passiva de alta eficácia, disponível todas as noites – basta o profissional lembrar disso.
Referências
Finan PH, Goodin BR, Smith MT. The association of sleep and pain: an update and a path forward. J Pain. 2013;14(12):1539–1552.
Alsaadi SM, McAuley JH, Hush JM, et al. Poor sleep quality is strongly associated with subsequent pain intensity in patients with acute low back pain. Arthritis Rheum. 2014;66(5):1388–1394.
Irwin MR. Sleep and inflammation: partners in sickness and in health. Nat Rev Immunol. 2019;19(11):702–715.
Prof Leonardo Nascimento, Ft Msc DO PhD
Fisioterapeuta
Osteopata
Pós‑graduado em Fisioterapia Ortopédica e Desportiva pela UNICID/SP
Especialista em Terapia Manual e Postural pela Cesumar/PR
Especialista em Osteopatia pela Universidade Castelo Branco/RJ
Osteopata Certificado pela Escola de Madrid
Professor da Escola de Madrid Internacional
Mestre em Ciências da Reabilitação – USP
Diplomado em Osteopatia pela SEFO (Scientific European Federation Osteopaths)
Doutor em Neurociências e Comportamento - FMUSP
Estudioso da área de palpação e sensibilidade manual tátil no Laboratório de Fisioterapia e Comportamento na Universidade de São Paulo – USP
Colaborador do DO‑Touch (American Osteopathic Association)
Coordenador de Grupos de Pesquisa da Escola de Madrid Internacional
Host do Podcast Osteopatia Científica
Revisor de Periódicos de Fisioterapia e Osteopatia
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