O Mito do “Core Fraco” – Por que você treina errado e sente dor lombar
Durante décadas, a ideia de que uma “musculatura do core fraca” seria a raiz de todos os males da dor lombar se espalhou como verdade absoluta entre fisioterapeutas, educadores físicos e pacientes. Se você já ouviu que precisa "ativar o transverso" ou "fortalecer o abdominal profundo" para resolver suas dores, você foi vítima de uma das maiores simplificações (e distorções) da história da reabilitação musculoesquelética.
De onde veio essa ideia?
A noção de que o “core fraco” causa dor lombar surgiu a partir de estudos observacionais no final dos anos 1990, como os de Hodges & Richardson (1996), que mostraram atrasos de ativação no transverso abdominal em pessoas com dor lombar. A conclusão? Vamos fortalecer esse músculo!
O problema? A correlação virou prescrição. Sem testes clínicos robustos, nasceu a obsessão com o "core".
O que a ciência mostra hoje?
Estudos mais recentes e robustos — incluindo revisões sistemáticas e metanálises — demonstraram que não há superioridade de exercícios específicos para o “core” em relação a outros tipos de exercício para dor lombar crônica. Ou seja: fortalecer o core pode ser útil, mas não é mágico.
E qual o risco de focar só no core?
Quando profissionais direcionam toda a reabilitação apenas ao fortalecimento do transverso ou dos multífidos, perdem a chance de abordar fatores biopsicossociais, movimento global e estratégias ativas que envolvam funcionalidade, prazer e autonomia do paciente. Além disso, isso alimenta o medo do movimento e a crença de fragilidade.
E o mais importante: ninguém tem o core "ativado" o tempo todo
A ideia de andar com o abdome contraído permanentemente é tão absurda quanto dizer que devemos ficar com o bíceps flexionado o tempo todo para proteger o cotovelo. Isso não é estabilidade, é rigidez. E rigidez não é sinônimo de controle.
O que fazer, então?
A prescrição de exercícios deve considerar variabilidade, força geral, contexto funcional, prazer no movimento e educação. Fortalecer o core? Pode ser parte. Mas não é o centro do universo clínico. E se alguém disser que sua dor lombar só existe porque seu core está fraco… corra. Do terapeuta.
Referências
Hodges PW, Richardson CA. Inefficient muscular stabilization of the lumbar spine associated with low back pain. Spine. 1996;21(22):2640–2650.
Smith BE, Littlewood C, May S. An update of stabilisation exercises for low back pain: a systematic review. Phys Ther. 2014;100(1):84–98.
Saragiotto BT, Maher CG, Yamato TP, et al. Motor control exercise for chronic non-specific low-back pain. Cochrane Database Syst Rev. 2016;(1):CD012004.
Prof Leonardo Nascimento, Ft Msc DO PhD
Fisioterapeuta
Osteopata
Pós‑graduado em Fisioterapia Ortopédica e Desportiva pela UNICID/SP
Especialista em Terapia Manual e Postural pela Cesumar/PR
Especialista em Osteopatia pela Universidade Castelo Branco/RJ
Osteopata Certificado pela Escola de Madrid
Professor da Escola de Madrid Internacional
Mestre em Ciências da Reabilitação – USP
Diplomado em Osteopatia pela SEFO (Scientific European Federation Osteopaths)
Doutor em Neurociências e Comportamento - FMUSP
Estudioso da área de palpação e sensibilidade manual tátil no Laboratório de Fisioterapia e Comportamento na Universidade de São Paulo – USP
Colaborador do DO‑Touch (American Osteopathic Association)
Coordenador de Grupos de Pesquisa da Escola de Madrid Internacional
Host do Podcast Osteopatia Científica
Revisor de Periódicos de Fisioterapia e Osteopatia
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