O Mito do Diafragma: Ele é a "chave de tudo" ou apenas um músculo?
Nas últimas décadas, o diafragma passou de um músculo respiratório subestimado a uma espécie de entidade quase mística no vocabulário de alguns fisioterapeutas e osteopatas. Em cursos, redes sociais e workshops ditos "integrativos", ele é exaltado como a “chave do corpo”, o centro de tudo que existe — da dor lombar ao refluxo, da ansiedade à fascite plantar. Mas será que essa onipresença terapêutica é respaldada pela ciência?
O que é o diafragma — e o que ele realmente faz?
O diafragma é o principal músculo da respiração. Ele separa a cavidade torácica da abdominal e, ao se contrair, permite a entrada de ar nos pulmões ao reduzir a pressão intratorácica. Também exerce papel na estabilização do tronco, na micção, na defecação e até no parto — funções mecânicas e fisiológicas bem estabelecidas na literatura anatômica e fisiológica.
Além disso, ele possui conexões anatômicas relevantes com o psoas, quadrado lombar, coluna lombar, esterno e costelas, o que explica parte de seu envolvimento em cadeias miofasciais. Contudo, uma conexão anatômica não equivale automaticamente a uma relação causal com qualquer disfunção clínica — erro clássico do possibilismo anatômico.
O problema: o diafragma virou fetiche terapêutico
A narrativa mística em torno do diafragma cresceu a partir de extrapolações anedóticas e metáforas enganosas. Expressões como “o diafragma armazena emoções”, “liberar o diafragma desbloqueia traumas” ou “ele é o músculo da alma” ganharam força em cursos com pouca ou nenhuma base científica. E, claro, onde há um “músculo mágico”, há sempre uma técnica “revolucionária” para tratá-lo.
Essas ideias não apenas carecem de comprovação, como promovem um reducionismo perigoso, criando dependência do paciente em abordagens passivas, sem foco em funcionalidade real ou educação em saúde.
O que a ciência realmente diz?
Estudos como o de Bordoni et al. (2021) exploram as relações fisiológicas e biomecânicas do diafragma com outros sistemas, incluindo seu papel na dor lombar e controle postural. No entanto, poucos estudos isolam os efeitos clínicos de intervenções direcionadas exclusivamente ao diafragma, o que enfraquece as alegações de eficácia milagrosa.
Um exemplo ilustrativo é o estudo de Silva et al. (2022), que avaliou a contratilidade diafragmática em indivíduos com instabilidade crônica de tornozelo. O estudo sugere uma possível correlação entre menor função diafragmática (especialmente à esquerda) e instabilidade periférica. Contudo, trata-se de um achado exploratório com limitações significativas: uso de autorrelato para classificar a instabilidade e ausência de controle de variáveis confusas como padrão respiratório, nível de atividade física ou disfunção lombopélvica.
A própria ideia de que “o diafragma esquerdo está relacionado ao tornozelo instável direito” é um salto lógico sem sustentação causal robusta — um exemplo claro de como a correlação não implica causalidade.
O papel clínico real do diafragma
Sim, o diafragma é um músculo relevante, especialmente em condições como DPOC, distúrbios de controle motor, disfunções abdominais e padrões respiratórios alterados. Técnicas de reeducação respiratória podem ser úteis, desde que aplicadas com critério clínico e dentro de uma abordagem ativa e contextualizada.
O problema não está em tratar o diafragma. Está em transformá-lo em um amuleto clínico.
Conclusão: desmistificar é cuidar melhor
Atribuir ao diafragma um status quase espiritual não o torna mais funcional — apenas distorce a prática baseada em evidências. O fisioterapeuta que se pauta pela ciência entende que o corpo funciona como um sistema dinâmico e multifatorial, onde um músculo pode ser importante, mas jamais a "chave de tudo".
Sejamos críticos, pragmáticos e clínicos: o diafragma é relevante, mas não mágico. E o paciente merece mais do que uma terapia centrada em mitos miofasciais.
Referências
Bordoni B, et al. The respiratory diaphragm in osteopathic vision: a literature review. Cureus. 2021;13(2):e13229.
Silva GR, et al. Diaphragm contractility in individuals with chronic ankle instability. J Athl Train. 2022;57(2):137–144.
Kolar P, et al. Postural function of the diaphragm in persons with and without chronic low back pain. J Orthop Sports Phys Ther. 2012;42(4):352–362.
Hodges PW, Gandevia SC. Activation of the human diaphragm during a repetitive postural task. J Physiol. 2000;522 Pt 1:165–175.
Prof Leonardo Nascimento, Ft Msc DO PhD
Fisioterapeuta
Osteopata
Pós‑graduado em Fisioterapia Ortopédica e Desportiva pela UNICID/SP
Especialista em Terapia Manual e Postural pela Cesumar/PR
Especialista em Osteopatia pela Universidade Castelo Branco/RJ
Osteopata Certificado pela Escola de Madrid
Professor da Escola de Madrid Internacional
Mestre em Ciências da Reabilitação – USP
Diplomado em Osteopatia pela SEFO (Scientific European Federation Osteopaths)
Doutor em Neurociências e Comportamento - FMUSP
Estudioso da área de palpação e sensibilidade manual tátil no Laboratório de Fisioterapia e Comportamento na Universidade de São Paulo – USP
Colaborador do DO‑Touch (American Osteopathic Association)
Coordenador de Grupos de Pesquisa da Escola de Madrid Internacional
Host do Podcast Osteopatia Científica
Revisor de Periódicos de Fisioterapia e Osteopatia
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