O Mito do “Bloqueio Vertebral”: O Que o Seu Cérebro Está te Contando

Por décadas, o conceito de "bloqueio vertebral" foi vendido como verdade absoluta nas clínicas e consultórios. Aquela ideia de que uma vértebra "saiu do lugar", ficou "travada" ou "desalinhada", e que precisa ser "recolocada" por meio de uma técnica milagrosa. Mas será mesmo que uma vértebra se desloca magicamente, trava a coluna inteira e aguarda passivamente um toque divino do terapeuta para “voltar ao normal”? Vamos aos fatos.

O que é alegado como “bloqueio”?

Na linguagem popular — e, infelizmente, ainda em parte da formação profissional — o bloqueio vertebral é interpretado como uma disfunção estrutural: uma vértebra hipoteticamente presa em uma posição inadequada, causando dor e limitação. Esse modelo reducionista ganhou força com escolas de terapia manual clássicas que propunham testes de movimento passivo para detectar o "nível travado".

Só que há um problema: não há evidência científica robusta de que isso seja verificável, confiável ou sequer clinicamente relevante. A palpação intervertebral passiva apresenta baixa confiabilidade interexaminador, mesmo entre profissionais experientes (Seffinger et al., 2004; Stochkendahl et al., 2006).

O que diz a neurociência da dor?

O que muitos profissionais ainda não consideram é que a percepção de rigidez ou bloqueio é, antes de tudo, uma experiência sensorial mediada pelo sistema nervoso central. Estudos como os de Stanton et al. (2017) mostram que a rigidez percebida na dor lombar crônica não se correlaciona com medidas biomecânicas objetivas de rigidez — e sim com fatores como medo, catastrofização e hipervigilância.

Ou seja: você pode sentir a coluna "travada", mesmo que biomecanicamente ela esteja se movimentando normalmente.

E o famoso “cloque”?

O famoso estalo obtido em manipulações também é mal interpretado como uma "liberação articular". Mas a literatura é clara: o estalo é um fenômeno cavitacional articular, e não há relação direta entre o estalo e o sucesso clínico da intervenção (Bialosky et al., 2008). Sentir alívio após a manipulação não prova que algo foi “recolocado” — prova apenas que o cérebro modulou o input nociceptivo e os sinais motores de forma diferente.

Então o que está acontecendo?

A resposta mais plausível é: o cérebro está “protegendo” aquela região. Quando há dor, medo ou memória de dor, o sistema motor adota padrões de proteção. Um deles é reduzir o movimento percebido, aumentando o tônus muscular local. Isso gera a sensação de rigidez — um bloqueio virtual, funcional, e não estrutural.

É a história que o seu cérebro está te contando para garantir que você não se mova de novo como antes — até que ele tenha certeza de que é seguro.

Como devemos agir?

O foco deve estar em restaurar a confiança no movimento, desmistificar narrativas biomecânicas ultrapassadas e oferecer intervenções baseadas em evidências que atuem sobre o sistema nervoso (educação em neurociência da dor, exercícios graduados, terapia manual com abordagem centrada no paciente, etc.).

Conclusão

O mito do bloqueio vertebral é um dos fantasmas mais resistentes da prática clínica. Ele persiste porque alimenta uma lógica mecanicista, paternalista e dependente. Mas cabe a nós, fisioterapeutas e osteopatas comprometidos com a ciência, mostrar que dor e movimento são fenômenos complexos — e que o desbloqueio mais importante é o das ideias.

Referências

  • Seffinger MA et al. Reliability of spinal palpation for diagnosis of back and neck pain: A systematic review. J Manipulative Physiol Ther. 2004.

  • Stochkendahl MJ et al. Interexaminer reliability of motion palpation in the cervical and lumbar spine: A systematic review. Chiropr Osteopat. 2006.

  • Stanton TR et al. Feeling stiff in the back: A protective perceptual inference in chronic back pain. Sci Rep. 2017.

  • Bialosky JE et al. Spinal manipulative therapy–induced hypoalgesia: A narrative review of the current evidence. J Pain. 2009.

Prof  Leonardo  Nascimento,  Ft  Msc  DO  PhD
Fisioterapeuta
Osteopata
Pós‑graduado em Fisioterapia Ortopédica e Desportiva pela UNICID/SP
Especialista em Terapia Manual e Postural pela Cesumar/PR
Especialista em Osteopatia pela Universidade Castelo Branco/RJ
Osteopata Certificado pela Escola de Madrid
Professor da Escola de Madrid Internacional
Mestre em Ciências da Reabilitação – USP
Diplomado em Osteopatia pela SEFO (Scientific European Federation Osteopaths)
Doutor em Neurociências e Comportamento - FMUSP
Estudioso da área de palpação e sensibilidade manual tátil no Laboratório de Fisioterapia e Comportamento na Universidade de São Paulo – USP
Colaborador do DO‑Touch (American Osteopathic Association)
Coordenador de Grupos de Pesquisa da Escola de Madrid Internacional
Host do Podcast Osteopatia Científica
Revisor de Periódicos de Fisioterapia e Osteopatia

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