O Músculo Pterigoideo Lateral nas Disfunções Temporomandibulares: O que a Ressonância Magnética Realmente nos Mostra?
O músculo pterigoideo lateral (lateral pterygoid muscle – LPM) ocupa uma posição quase "mítica" dentro da Disfunção Temporomandibular (DTM). Durante muitos anos, alterações nesse músculo foram apontadas como responsáveis por deslocamentos do disco articular, limitação da abertura bucal e dores na articulação temporomandibular (ATM).
Mas existe um problema importante: o pterigoideo lateral é um dos músculos mais difíceis de serem avaliados clinicamente.
Por estar profundamente localizado na fossa infratemporal, sua palpação direta é praticamente impossível. Ainda assim, muitos profissionais afirmam diagnosticar espasmos, hipertonias ou fraquezas desse músculo apenas com o exame físico.
Foi justamente diante dessa dificuldade que surgiu o estudo "Evaluation of the Lateral Pterygoid Muscle Using Magnetic Resonance Imaging", publicado na revista Dentomaxillofacial Radiology. O objetivo foi investigar como a ressonância magnética pode visualizar o músculo pterigoideo lateral e verificar se alterações estruturais apresentam relação com os sinais e sintomas da DTM.
O trabalho traz uma importante reflexão sobre os limites da avaliação clínica e sobre o papel da imagem no entendimento da fisiopatologia das DTMs.
Por que o pterigoideo lateral desperta tanto interesse?
O pterigoideo lateral possui uma anatomia singular.
Diferentemente da maioria dos músculos mastigatórios, parte de suas fibras superiores se insere na cápsula articular e no disco da ATM, enquanto suas fibras inferiores se inserem no colo da mandíbula.
Essa disposição anatômica faz com que ele participe de movimentos como:
- abertura da boca;
- protrusão mandibular;
- lateralidade;
- estabilização dinâmica da ATM;
- controle do posicionamento do disco articular.
Por essa razão, há décadas se discute se alterações nesse músculo poderiam contribuir para o desenvolvimento das DTMs.
Como o estudo foi realizado?
Os pesquisadores avaliaram 50 participantes, totalizando 100 articulações temporomandibulares, por meio de ressonância magnética.
O grupo foi dividido em:
- 35 indivíduos com sinais e sintomas de DTM;
- 15 indivíduos sem sintomas, utilizados como grupo controle.
Além da avaliação clínica, foram obtidas imagens em diferentes planos para analisar:
- espessura do músculo;
- altura;
- morfologia;
- inserções;
- possíveis alterações estruturais;
- relação com o disco articular.
Os autores também investigaram a presença de sintomas como:
- dor;
- estalidos articulares;
- bruxismo;
- cefaleia;
- limitação funcional.
A ressonância realmente consegue avaliar o músculo?
Sim.
O estudo demonstrou que as imagens sagitais oblíquas e axiais foram as que melhor permitiram visualizar o músculo pterigoideo lateral.
Essas projeções possibilitaram analisar simultaneamente:
- o músculo;
- o disco articular;
- o côndilo mandibular;
- a fossa mandibular;
- suas relações anatômicas.
Isso reforça a importância da ressonância magnética como o principal método de imagem para investigação das estruturas moles da ATM.
Quais alterações foram encontradas?
Os pesquisadores observaram algumas alterações estruturais no músculo, incluindo:
- hipertrofia;
- atrofia;
- contratura.
Também identificaram alterações articulares frequentemente associadas às DTMs, como:
- deslocamento do disco;
- hipermobilidade;
- hipomobilidade da ATM.
Esses achados apareceram com maior frequência nos indivíduos sintomáticos, mas um aspecto chamou bastante atenção.
Algumas alterações musculares também estavam presentes em pessoas completamente assintomáticas.
O que isso significa?
Esse talvez seja o principal ensinamento do estudo.
Encontrar uma alteração na imagem não significa, automaticamente, que ela seja a causa da dor.
Da mesma forma que ocorre na coluna lombar, no ombro e no joelho, alterações estruturais podem existir sem produzir sintomas.
Portanto, visualizar uma atrofia ou uma contratura do pterigoideo lateral na ressonância não autoriza concluir que essa seja a origem do problema clínico.
A imagem precisa ser interpretada dentro do contexto do paciente.
O mito da palpação do pterigoideo lateral
Talvez uma das maiores implicações clínicas desse trabalho seja colocar em perspectiva uma prática ainda bastante difundida.
Diversos cursos ensinam que é possível diagnosticar espasmos ou tensão do pterigoideo lateral por meio da palpação intraoral.
Entretanto, do ponto de vista anatômico, isso é extremamente improvável.
A própria introdução do estudo reforça que a cabeça inferior do pterigoideo lateral não é palpável clinicamente devido à sua localização profunda. O máximo que pode ocorrer é o contato indireto com tecidos vizinhos, sem garantia de que o músculo esteja sendo efetivamente avaliado.
Isso nos leva a uma reflexão importante.
Quantos diagnósticos musculares têm sido feitos com uma precisão que a anatomia simplesmente não permite?
O músculo explica toda a DTM?
Definitivamente, não.
A Disfunção Temporomandibular é uma condição multifatorial.
Além de possíveis alterações musculares e articulares, diversos fatores influenciam o quadro clínico:
- sensibilização do sistema nervoso;
- fatores psicossociais;
- estresse;
- hábitos parafuncionais;
- sobrecarga mecânica;
- qualidade do sono;
- crenças relacionadas à dor.
O pterigoideo lateral é apenas uma das peças desse quebra-cabeça.
Reduzir toda a DTM a um único músculo representa um modelo simplista que não encontra respaldo nas evidências atuais.
O que esse estudo muda para o clínico?
O artigo não propõe novos tratamentos.
Também não afirma que alterações do pterigoideo lateral sejam responsáveis pela maioria dos casos de DTM.
Sua principal contribuição é mostrar que:
- a ressonância magnética permite excelente visualização do músculo;
- alterações estruturais podem ser identificadas;
- essas alterações precisam ser interpretadas com cautela;
- não existe correspondência obrigatória entre imagem e sintomas.
Essa é exatamente a mesma mensagem que a literatura moderna vem mostrando para outras regiões do sistema musculoesquelético.
Imagem é uma ferramenta de apoio.
Ela não substitui o raciocínio clínico.
A grande mensagem
O estudo "Evaluation of the Lateral Pterygoid Muscle Using Magnetic Resonance Imaging" representa uma importante contribuição para o entendimento da anatomia funcional da ATM.
Ele demonstra que a ressonância magnética é capaz de avaliar o músculo pterigoideo lateral com boa qualidade e identificar alterações morfológicas relevantes.
Ao mesmo tempo, reforça um princípio fundamental da prática baseada em evidências:
Nem toda alteração estrutural encontrada na imagem explica a dor do paciente.
Para o osteopata e o fisioterapeuta moderno, essa conclusão é especialmente importante.
Mais do que procurar um músculo "em espasmo" ou um disco "fora do lugar", o desafio é compreender o paciente de forma integrada, considerando aspectos biomecânicos, neurofisiológicos e biopsicossociais.
Porque a excelência clínica não está em encontrar alterações na imagem.
Está em saber quando elas realmente fazem diferença.
Referência
D'Ippolito SM, Borri Wolosker AM, D'Ippolito G, Herbert de Souza B, Fenyo-Pereira M. Evaluation of the lateral pterygoid muscle using magnetic resonance imaging. Dentomaxillofacial Radiology. 2010;39(8):494-500. doi:10.1259/dmfr/80928433.
Prof Leonardo Nascimento, Ft Msc DO PhD
Fisioterapeuta
Osteopata
Pós-graduado em Fisioterapia Ortopédica e Desportiva pela UNICID/SP
Especialista em Terapia Manual e Postural pela Cesumar/PR
Especialista em Osteopatia pela Universidade Castelo Branco/RJ
Osteopata Certificado pela Escola de Madrid
Professor da Escola de Madrid Internacional
Mestre em Ciências da Reabilitação – USP
Diplomado em Osteopatia pela SEFO (Scientific European Federation Osteopaths)
Doutor em Neurociências e Comportamento - FMUSP
Estudioso da área de palpação e sensibilidade manual tátil no Laboratório de Fisioterapia e Comportamento na Universidade de São Paulo – USP
Colaborador do DO-Touch (American Osteopathic Association)
Coordenador de Grupos de Pesquisa da Escola de Madrid Internacional
Host do Podcast Osteopatia Científica
Revisor de Periódicos de Fisioterapia e Osteopatia
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