Exercício para Dor Musculoesquelética Crônica: Será que Estamos Tratando Apenas os Músculos ou Também as Memórias da Dor?
Durante muitos anos, acreditou-se que o principal objetivo do exercício terapêutico era fortalecer músculos, aumentar a mobilidade articular e melhorar o condicionamento físico. Esses benefícios continuam sendo fundamentais, mas a neurociência da dor revelou que existe uma dimensão muito mais profunda envolvida no processo de reabilitação.
Hoje sabemos que pacientes com dor musculoesquelética crônica não carregam apenas alterações biomecânicas. Eles também carregam memórias da dor.
Foi justamente essa ideia inovadora que motivou a publicação do artigo "Exercise therapy for chronic musculoskeletal pain: Innovation by altering pain memories", um trabalho que propõe uma nova forma de compreender por que o exercício pode ser tão eficaz em pacientes com dor persistente.
Em vez de enxergar o exercício apenas como um estímulo físico, os autores sugerem que ele seja entendido como uma poderosa ferramenta capaz de modificar memórias associadas à dor, reduzindo respostas de ameaça aprendidas ao longo do tempo.
Essa perspectiva representa uma mudança importante na forma como fisioterapeutas, osteopatas e demais profissionais da saúde podem planejar seus programas de reabilitação.
O que são memórias da dor?
Quando pensamos em memória, normalmente imaginamos recordar um fato ou uma experiência vivida.
No entanto, o sistema nervoso também é capaz de armazenar associações entre determinados estímulos e experiências dolorosas.
Imagine um paciente que apresentou uma crise intensa de lombalgia ao abaixar-se para pegar uma caixa no chão.
Mesmo após a recuperação dos tecidos, o cérebro pode continuar associando aquele movimento ao perigo.
Na próxima tentativa de flexionar a coluna, surgem:
- medo;
- tensão muscular;
- hipervigilância;
- expectativa de dor;
- comportamentos de proteção.
O movimento deixa de representar apenas uma tarefa mecânica.
Ele passa a carregar uma memória de ameaça.
Como essas memórias são formadas?
O artigo explica que a dor persistente pode envolver processos semelhantes aos observados na aprendizagem.
Quando um estímulo é repetidamente associado a uma experiência dolorosa, o cérebro aprende essa relação.
Com o tempo, movimentos antes considerados normais passam a desencadear respostas automáticas de proteção.
Entre elas:
- aumento da atividade muscular;
- redução da velocidade do movimento;
- alterações no controle motor;
- evitação de atividades;
- aumento da ansiedade relacionada ao movimento.
Essas respostas são úteis durante uma lesão aguda.
O problema surge quando permanecem ativas mesmo após a recuperação dos tecidos.
O exercício como ferramenta de reaprendizagem
Essa talvez seja a principal contribuição do artigo.
Os autores propõem que o exercício não seja visto apenas como uma forma de fortalecer músculos ou aumentar a capacidade física.
Seu papel também seria ensinar novamente ao sistema nervoso que determinados movimentos podem ser realizados com segurança.
Cada movimento executado sem consequências negativas funciona como uma nova informação para o cérebro.
Pouco a pouco, a associação entre movimento e ameaça começa a enfraquecer.
Esse processo é conhecido como aprendizagem por segurança (safety learning).
Não significa apagar completamente a memória antiga.
Significa construir uma memória nova, mais forte e mais adaptativa.
A importância da exposição gradual
Essa ideia aproxima o exercício terapêutico dos princípios utilizados em diversas intervenções comportamentais.
Se um paciente evita determinado movimento porque acredita que ele causará dor ou lesão, a estratégia não costuma ser evitar o movimento para sempre.
Também não é expô-lo de maneira abrupta.
O caminho mais eficaz costuma ser a exposição gradual.
Por exemplo:
- iniciar com amplitudes menores;
- reduzir a carga inicialmente;
- controlar a velocidade;
- aumentar progressivamente a complexidade da tarefa;
- respeitar a tolerância do paciente.
Cada sucesso obtido durante esse processo fortalece a confiança e reduz a expectativa de ameaça.
O papel da previsibilidade
Outro aspecto interessante discutido pelos autores é a importância da previsibilidade durante o exercício.
Quando o paciente sabe o que será feito, compreende por que está realizando determinada tarefa e percebe que consegue executá-la com segurança, o sistema nervoso tende a interpretar a experiência como menos ameaçadora.
Isso reduz a hipervigilância e favorece novas aprendizagens.
Mais uma vez, a comunicação clínica assume papel central.
Dor durante o exercício significa dano?
Essa é uma das perguntas mais frequentes no consultório.
O artigo reforça que nem toda dor durante o exercício representa lesão ou agravamento do quadro.
Em muitos pacientes com dor persistente, pequenas elevações temporárias da dor fazem parte do processo de adaptação.
Naturalmente, isso não significa ignorar sintomas importantes ou prescrever exercícios indiscriminadamente.
O objetivo é ensinar o paciente a diferenciar desconfortos esperados do treinamento de sinais que realmente indiquem necessidade de ajuste da carga.
Essa diferenciação reduz medo e aumenta a autoeficácia.
O exercício modifica apenas o cérebro?
Não.
Esse é um ponto importante.
O exercício continua promovendo adaptações fisiológicas fundamentais:
- aumento da força muscular;
- melhora da capacidade cardiorrespiratória;
- ganho de mobilidade;
- melhora do equilíbrio;
- aumento da resistência;
- redução de processos inflamatórios sistêmicos;
- melhora da qualidade do sono.
A inovação proposta pelo artigo não substitui esses mecanismos.
Ela os complementa.
O exercício atua simultaneamente sobre tecidos, sistema nervoso, comportamento e cognição.
O que muda para o fisioterapeuta e o osteopata?
A principal mudança talvez esteja na forma de construir o programa terapêutico.
Em vez de perguntar apenas:
"Qual músculo preciso fortalecer?"
Talvez seja mais útil perguntar:
- Quais movimentos esse paciente evita?
- Quais experiências dolorosas marcaram sua história?
- Quais crenças mantêm esse comportamento?
- Como posso oferecer experiências seguras que reconstruam sua confiança?
Essas perguntas ampliam o raciocínio clínico e aproximam a intervenção dos princípios da prática baseada em evidências.
O exercício deixa de ser apenas uma prescrição
Sob essa nova perspectiva, o exercício passa a representar muito mais do que séries, repetições e cargas.
Cada sessão torna-se uma oportunidade para:
- reduzir medo;
- restaurar confiança;
- aumentar autoeficácia;
- modificar expectativas;
- reconstruir padrões de movimento;
- ampliar participação nas atividades da vida diária.
O objetivo não é apenas fortalecer músculos.
É fortalecer a capacidade do paciente de voltar a viver.
A grande mensagem
O artigo "Exercise therapy for chronic musculoskeletal pain: Innovation by altering pain memories" propõe uma mudança importante na forma como compreendemos a reabilitação da dor musculoesquelética crônica.
O exercício continua sendo uma das intervenções mais eficazes disponíveis.
Mas seu benefício não depende apenas das adaptações musculares e biomecânicas.
Cada movimento realizado com segurança representa uma oportunidade para que o cérebro atualize antigas memórias de ameaça e desenvolva novas associações baseadas em confiança, capacidade e recuperação.
Para o osteopata e o fisioterapeuta moderno, essa visão amplia significativamente o papel do exercício terapêutico.
Não prescrevemos exercícios apenas para modificar tecidos.
Prescrevemos exercícios para modificar experiências.
E talvez essa seja uma das maiores contribuições da neurociência para a prática clínica contemporânea.
Porque pacientes não precisam apenas de músculos mais fortes.
Precisam de um sistema nervoso que volte a acreditar que o movimento é seguro.
Referência
Nijs J, Lahousse A, Kapreli E, et al. Exercise therapy for chronic musculoskeletal pain: Innovation by altering pain memories. Manual Therapy. 2015;20(1):216-220. doi:10.1016/j.math.2014.07.004.
Prof Leonardo Nascimento, Ft Msc DO PhD
Fisioterapeuta
Osteopata
Pós-graduado em Fisioterapia Ortopédica e Desportiva pela UNICID/SP
Especialista em Terapia Manual e Postural pela Cesumar/PR
Especialista em Osteopatia pela Universidade Castelo Branco/RJ
Osteopata Certificado pela Escola de Madrid
Professor da Escola de Madrid Internacional
Mestre em Ciências da Reabilitação – USP
Diplomado em Osteopatia pela SEFO (Scientific European Federation Osteopaths)
Doutor em Neurociências e Comportamento - FMUSP
Estudioso da área de palpação e sensibilidade manual tátil no Laboratório de Fisioterapia e Comportamento na Universidade de São Paulo – USP
Colaborador do DO-Touch (American Osteopathic Association)
Coordenador de Grupos de Pesquisa da Escola de Madrid Internacional
Host do Podcast Osteopatia Científica
Revisor de Periódicos de Fisioterapia e Osteopatia
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