Neuralgia do Trigêmeo: Uma Visão Crítica Sobre Diagnóstico, Mecanismos e Tratamento

 A neuralgia do trigêmeo é uma das formas mais intensas de dor facial conhecidas na medicina, frequentemente descrita por pacientes como "um choque elétrico lancinante" que compromete a qualidade de vida de forma significativa. Embora relativamente rara, é uma condição que desafia clínicos, neurologistas e, por que não, osteopatas, especialmente quando o objetivo é compreender as bases fisiopatológicas e terapêuticas com rigor científico.

O Que é a Neuralgia do Trigêmeo?

Trata-se de uma neuropatia do nervo trigêmeo (quinto par craniano), responsável pela sensibilidade da face e por funções motoras relacionadas à mastigação. A dor costuma ocorrer de forma unilateral e episódica, com gatilhos mínimos como tocar o rosto, falar, escovar os dentes ou até mesmo respirar.

Segundo a revisão abrangente publicada recentemente, os critérios diagnósticos da ICHD-3 (International Classification of Headache Disorders) ainda são o padrão ouro. No entanto, a revisão destaca as limitações na diferenciação entre neuralgia clássica, secundária (por esclerose múltipla ou tumores) e atípica, o que leva a frequentes diagnósticos errôneos.

Mecanismos Patofisiológicos

A literatura sugere um modelo multifatorial:

  • Compressão vascular do nervo trigêmeo na raiz de entrada da ponte, levando à desmielinização focal.

  • Disfunção no sistema nervoso central, com hipersensibilização da via trigemino-talâmica.

  • Alterações neuroplásticas em casos crônicos ou recorrentes.

A revisão também discute como a dor neuropática do trigêmeo apresenta diferenças fundamentais em relação a outras condições craniofaciais, exigindo abordagens clínicas individualizadas.

Estratégias Terapêuticas

O tratamento farmacológico ainda é a principal linha de ação. A carbamazepina e oxcarbazepina são os medicamentos de primeira linha. No entanto, muitos pacientes não respondem ou não toleram os efeitos colaterais.

A revisão também avalia intervenções cirúrgicas como a descompressão microvascular, a termocoagulação por radiofrequência e abordagens mais recentes como estimulação cerebral profunda. Os autores destacam que, embora eficazes, essas intervenções envolvem riscos significativos e devem ser reservadas para casos refratários.

E a Osteopatia Tem Algum Papel?

Não há evidência direta de que técnicas osteopáticas tenham efeito terapêutico comprovado sobre a neuralgia do trigêmeo. No entanto, o artigo ressalta que abordagens que considerem a modulação da dor, do estresse e da mecânica craniana (com todos os seus questionamentos epistemológicos) podem atuar como coadjuvantes em um plano multimodal. A chave está na honestidade científica: qualquer proposta de cuidado osteopático deve vir acompanhada de crítica metodológica e bom senso clínico.

Considerações Finais

A neuralgia do trigêmeo exige mais do que empatia: requer conhecimento técnico refinado, pensamento crítico e senso de limites. É um campo fértil para o diálogo entre neurociência, farmacologia, cirurgia funcional e cuidado integrativo. E talvez seja um dos melhores exemplos de como a prática baseada em evidências é um farol necessário, especialmente quando se lida com dores incapacitantes de origem neurológica.

Referência
Moore M, Woodall MN, Rajani R, et al. A Comprehensive Review of Trigeminal Neuralgia. Cureus. 2024 Jan;16(1):e52092. PMID: 38348249

Prof Leonardo Nascimento, Ft Msc DO PhD
Fisioterapeuta
Osteopata
Pós‑graduado em Fisioterapia Ortopédica e Desportiva pela UNICID/SP
Especialista em Terapia Manual e Postural pela Cesumar/PR
Especialista em Osteopatia pela Universidade Castelo Branco/RJ
Osteopata Certificado pela Escola de Madrid
Professor da Escola de Madrid Internacional
Mestre em Ciências da Reabilitação – USP
Diplomado em Osteopatia pela SEFO (Scientific European Federation Osteopaths)
Doutor em Neurociências e Comportamento - FMUSP
Estudioso da área de palpação e sensibilidade manual tátil no Laboratório de Fisioterapia e Comportamento na Universidade de São Paulo – USP
Colaborador do DO‑Touch (American Osteopathic Association)
Coordenador de Grupos de Pesquisa da Escola de Madrid Internacional
Host do Podcast Osteopatia Científica
Revisor de Periódicos de Fisioterapia e Osteopatia

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Controle Motor: A Base Científica que Está Revolucionando a Reabilitação!

Nervo vertebral

O teste de discriminação de dois pontos melhora com o tempo de prática?