Neuralgia do Trigêmeo: Quando o Rosto Vira Alvo de uma Dor Inimaginável

 Imagine um choque elétrico intenso no rosto. Não uma vez. Mas repetidamente, com qualquer estímulo leve: uma brisa, um sorriso, um gole de água. Essa é a realidade de quem convive com a neuralgia do trigêmeo. Um diagnóstico que desafia médicos, fisioterapeutas e osteopatas – e que, muitas vezes, anda de mãos dadas com diagnósticos errados e tratamentos ineficazes.

O artigo “Trigeminal Neuralgia: A Practical Guide”, publicado na Practical Neurology, oferece uma abordagem didática e atualizada sobre a condição, mas nos permite também levantar reflexões críticas sobre sua complexidade diagnóstica, abordagem terapêutica e as limitações da literatura.

Diagnóstico: O Labirinto Clínico

A neuralgia do trigêmeo clássica é descrita como dor unilateral, paroxística, intensa, geralmente em uma das três divisões do nervo trigêmeo. Mas, como aponta o artigo, há uma zona cinzenta entre a neuralgia clássica e as formas atípicas, nas quais a dor pode ser mais constante e menos "elétrica".

O grande desafio está na diferenciação entre:

  • Neuralgia do trigêmeo clássica (com compressão neurovascular confirmada)

  • Neuralgia secundária (tumores, esclerose múltipla, AVEs de fossa posterior)

  • Dor facial idiopática persistente (que recebe o rótulo por exclusão)

A ressonância magnética de alta resolução com sequência específica (como CISS ou FIESTA) se tornou essencial para identificar compressões vasculares. No entanto, o artigo é honesto ao admitir: nem toda compressão é sintomática, e nem todo paciente com dor apresenta alterações estruturais evidentes.

Tratamento: Entre Eficácia e Tolerância

A carbamazepina continua sendo o fármaco padrão-ouro, com eficácia comprovada, mas com alto índice de efeitos colaterais. Oxcarbazepina, lamotrigina, baclofeno e gabapentinoides são opções secundárias, embora com menor evidência. O artigo alerta para os riscos de dependência em opioides e o uso não criterioso de antidepressivos tricíclicos – algo que infelizmente ainda é rotina em muitos contextos clínicos.

Do ponto de vista intervencionista, a descompressão microvascular permanece a opção cirúrgica com maior taxa de sucesso duradouro. No entanto, procedimentos ablativos (como radiofrequência ou rizotomia) têm maior taxa de recorrência e risco de hipoestesia facial.

E o Papel da Fisioterapia ou Osteopatia?

Aqui é preciso cautela e honestidade científica. O artigo é pragmático: não há evidência direta que suporte terapias físicas (incluindo fisioterapia ou manipulação osteopática) como tratamento primário para neuralgia do trigêmeo clássica. Ainda assim, pacientes com dor facial atípica, disfunções cervicais associadas, ou componentes miofasciais concomitantes podem se beneficiar de abordagens somáticas individualizadas — desde que respeitada a origem neuropática principal.

Além disso, técnicas de modulação autonômica, educação em dor e estratégias de autocuidado têm espaço, especialmente em casos refratários ou com sofrimento emocional elevado.

Conclusão: Um Diagnóstico que Não Pode Ser Trivializado

A neuralgia do trigêmeo é uma condição rara, mas com enorme impacto funcional e emocional. Seu tratamento exige diagnóstico preciso, olhar multidisciplinar e, acima de tudo, critérios clínicos e neuroanatômicos claros. Intervenções sem base científica ou tentativas alternativas sem integração médica só aumentam o sofrimento do paciente.

A mensagem do artigo é clara: não banalize a dor facial. Não confunda com DTM. E, por favor, não tente "descomprimir o trigêmeo com liberação craniana" sem entender a fisiopatologia envolvida.

Referência
Zakrzewska JM, Linskey ME. Trigeminal neuralgia: a practical guide. Pract Neurol. 2014;14(6):419–427. 

Prof Leonardo Nascimento, Ft Msc DO PhD
Fisioterapeuta
Osteopata
Pós‑graduado em Fisioterapia Ortopédica e Desportiva pela UNICID/SP
Especialista em Terapia Manual e Postural pela Cesumar/PR
Especialista em Osteopatia pela Universidade Castelo Branco/RJ
Osteopata Certificado pela Escola de Madrid
Professor da Escola de Madrid Internacional
Mestre em Ciências da Reabilitação – USP
Diplomado em Osteopatia pela SEFO (Scientific European Federation Osteopaths)
Doutor em Neurociências e Comportamento - FMUSP
Estudioso da área de palpação e sensibilidade manual tátil no Laboratório de Fisioterapia e Comportamento na Universidade de São Paulo – USP
Colaborador do DO‑Touch (American Osteopathic Association)
Coordenador de Grupos de Pesquisa da Escola de Madrid Internacional
Host do Podcast Osteopatia Científica
Revisor de Periódicos de Fisioterapia e Osteopatia

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