O Tratamento Osteopático das Disfunções Viscerais: O que os Osteopatas Realmente Pensam? Uma Análise da Prática Clínica Italiana

 A osteopatia visceral talvez seja um dos temas que mais geram debates dentro da própria osteopatia. Para alguns profissionais, ela representa um dos pilares da profissão. Para outros, as evidências científicas atuais ainda são insuficientes para justificar muitas das explicações fisiológicas tradicionalmente utilizadas.

Nesse cenário, um estudo interessante publicado em 2025 buscou responder uma pergunta diferente da maioria das pesquisas.

Em vez de perguntar se a osteopatia visceral funciona, os autores perguntaram:

Como os osteopatas constroem seu raciocínio clínico quando atendem pacientes com queixas viscerais?

Essa foi a proposta do artigo "Clinical Reasoning and Practices in the Osteopathic Management of Visceral Disorders: A Grounded Theory Study in the Italian Context", que utilizou uma metodologia qualitativa para compreender como osteopatas experientes pensam, avaliam e tomam decisões clínicas diante de pacientes com alterações relacionadas às vísceras.

Embora o estudo não avalie eficácia terapêutica, ele oferece uma oportunidade importante para refletirmos sobre a evolução do raciocínio clínico na osteopatia contemporânea.

O que é uma Grounded Theory?

Diferentemente de um ensaio clínico randomizado, uma Grounded Theory não procura medir efeitos de um tratamento.

Seu objetivo é compreender como determinado fenômeno acontece na prática.

Nesse tipo de pesquisa, os investigadores realizam entrevistas aprofundadas com profissionais experientes, analisam padrões recorrentes e constroem um modelo teórico capaz de explicar como essas pessoas pensam e tomam decisões.

Em outras palavras, trata-se de uma investigação sobre o raciocínio clínico.

Isso é importante porque muitas decisões tomadas diariamente pelos profissionais não aparecem em protocolos ou algoritmos.

Elas surgem da integração entre conhecimento científico, experiência clínica e interpretação individual do caso.

Como o estudo foi realizado?

Os pesquisadores entrevistaram osteopatas italianos com ampla experiência clínica e formação consolidada.

As entrevistas abordaram diferentes aspectos da prática profissional, incluindo:

  • como identificam possíveis disfunções viscerais;
  • quais informações valorizam durante a anamnese;
  • como interpretam a relação entre vísceras e sistema musculoesquelético;
  • quais fatores influenciam a escolha das técnicas;
  • como decidem quando tratar ou encaminhar o paciente.

A análise qualitativa permitiu identificar temas recorrentes e construir um modelo explicativo sobre o processo de raciocínio clínico desses profissionais.

A avaliação vai muito além da palpação

Um dos achados mais interessantes do estudo é que os osteopatas entrevistados não relataram basear suas decisões apenas na palpação visceral.

Ao contrário do estereótipo frequentemente apresentado em cursos rápidos ou redes sociais, o raciocínio clínico descrito pelos participantes envolvia uma avaliação ampla, incluindo:

  • história clínica detalhada;
  • antecedentes médicos;
  • hábitos de vida;
  • alimentação;
  • fatores emocionais;
  • cirurgias prévias;
  • sintomas sistêmicos;
  • exame musculoesquelético;
  • integração entre diferentes sistemas corporais.

A palpação foi descrita como apenas uma das ferramentas disponíveis, e não como um método isolado capaz de estabelecer diagnósticos.

Esse ponto merece destaque.

Na prática baseada em evidências, nenhuma técnica de palpação, isoladamente, possui capacidade suficiente para diagnosticar alterações viscerais.

O modelo biopsicossocial aparece com força

Outro aspecto interessante é que muitos participantes descreveram uma visão integrada do paciente.

Os osteopatas relataram considerar fatores como:

  • estresse;
  • qualidade do sono;
  • comportamento alimentar;
  • atividade física;
  • contexto psicossocial;
  • doenças prévias.

Essa perspectiva aproxima a prática relatada pelos participantes do modelo biopsicossocial atualmente adotado pelas principais diretrizes internacionais para condições musculoesqueléticas.

Isso representa uma evolução importante em relação às explicações tradicionais exclusivamente mecânicas.

Visceral não significa "a causa de tudo"

Talvez um dos principais ensinamentos do estudo seja justamente aquilo que ele não encontrou.

Os participantes não relataram interpretar todas as dores musculoesqueléticas como consequência de disfunções viscerais.

Pelo contrário.

As alterações viscerais foram consideradas apenas uma das possíveis influências dentro de um sistema biológico complexo.

Essa postura é bastante diferente da narrativa frequentemente encontrada em conteúdos de baixa qualidade, que atribuem praticamente qualquer dor ao fígado, intestino, estômago ou útero.

A ciência atual não sustenta esse tipo de generalização.

O papel da experiência clínica

Os pesquisadores observaram que o raciocínio clínico evolui com a experiência.

Os profissionais mais experientes demonstraram menor dependência de protocolos rígidos e maior capacidade de integrar diferentes fontes de informação durante a tomada de decisão.

Entretanto, o estudo também mostra que experiência, por si só, não substitui evidência científica.

A boa prática clínica nasce justamente da integração entre:

  • melhor evidência disponível;
  • experiência profissional;
  • preferências e objetivos do paciente.

Esse é um dos princípios fundamentais da prática baseada em evidências.

O que o estudo não demonstra?

Esse talvez seja o ponto mais importante.

O artigo não demonstra que técnicas viscerais sejam eficazes para tratar doenças dos órgãos internos.

Também não demonstra que restrições fasciais viscerais provoquem dor musculoesquelética.

Muito menos confirma mecanismos fisiológicos frequentemente apresentados como verdades absolutas.

O objetivo da pesquisa foi compreender como osteopatas pensam.

Não testar se essas interpretações estão corretas.

Essa diferença metodológica é fundamental.

Uma pesquisa qualitativa produz conhecimento extremamente valioso sobre comportamento profissional, mas não estabelece relações de causa e efeito.

O que isso significa para o osteopata moderno?

O estudo mostra que o raciocínio clínico na osteopatia vem se tornando cada vez mais amplo e centrado no paciente.

Essa talvez seja sua principal contribuição.

O foco deixa de ser exclusivamente encontrar uma "restrição visceral" e passa a compreender como diferentes sistemas do organismo interagem na construção da experiência dolorosa.

Ao mesmo tempo, ele reforça a necessidade de reconhecer os limites do conhecimento atual.

Ainda existem poucas evidências robustas demonstrando que intervenções viscerais produzam benefícios clínicos consistentes para a maioria das condições musculoesqueléticas.

Isso não significa abandonar a investigação clínica das possíveis interações entre sistemas.

Significa interpretá-las com prudência científica.

O futuro da osteopatia visceral

O futuro provavelmente dependerá de pesquisas capazes de responder perguntas mais objetivas.

Entre elas:

  • Quais pacientes realmente podem se beneficiar dessas abordagens?
  • Quais mecanismos fisiológicos estão envolvidos?
  • Os efeitos observados superam placebo e outras intervenções?
  • Qual é o impacto clínico em médio e longo prazo?

Responder a essas perguntas exigirá ensaios clínicos de alta qualidade, estudos mecanísticos e revisões sistemáticas robustas.

Enquanto essas respostas não chegam, o melhor caminho continua sendo integrar conhecimento anatômico, fisiológico, comunicação clínica e prática baseada em evidências.

A grande mensagem

O estudo "Clinical Reasoning and Practices in the Osteopathic Management of Visceral Disorders: A Grounded Theory Study in the Italian Context" não pretende provar que a osteopatia visceral funciona ou não funciona.

Sua contribuição é outra.

Ele mostra como osteopatas experientes organizam seu raciocínio clínico diante de pacientes com possíveis alterações viscerais.

Ao revelar uma prática mais integrada, menos reducionista e mais centrada no paciente, o trabalho sinaliza uma evolução importante dentro da profissão.

Para o osteopata científico, a principal lição talvez seja esta:

O bom raciocínio clínico não nasce da busca por uma única causa para todos os sintomas.

Nasce da capacidade de integrar diferentes informações, reconhecer as incertezas da ciência e tomar decisões proporcionais às evidências disponíveis.

A maturidade da osteopatia não será medida pela quantidade de técnicas que dominamos.

Será medida pela qualidade das perguntas que fazemos antes de escolher qualquer intervenção.

Referência

Racca V, Cerritelli F, Consorti G, et al. Clinical Reasoning and Practices in the Osteopathic Management of Visceral Disorders: A Grounded Theory Study in the Italian Context. Healthcare. 2025.

Prof Leonardo Nascimento, Ft Msc DO PhD
Fisioterapeuta
Osteopata
Pós-graduado em Fisioterapia Ortopédica e Desportiva pela UNICID/SP
Especialista em Terapia Manual e Postural pela Cesumar/PR
Especialista em Osteopatia pela Universidade Castelo Branco/RJ
Osteopata Certificado pela Escola de Madrid
Professor da Escola de Madrid Internacional
Mestre em Ciências da Reabilitação – USP
Diplomado em Osteopatia pela SEFO (Scientific European Federation Osteopaths)
Doutor em Neurociências e Comportamento - FMUSP
Estudioso da área de palpação e sensibilidade manual tátil no Laboratório de Fisioterapia e Comportamento na Universidade de São Paulo – USP
Colaborador do DO-Touch (American Osteopathic Association)
Coordenador de Grupos de Pesquisa da Escola de Madrid Internacional
Host do Podcast Osteopatia Científica
Revisor de Periódicos de Fisioterapia e Osteopatia

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