Como Avaliar se a Terapia Manual Funciona? O Que um Novo Estudo Revela Sobre os Desfechos Utilizados nas Pesquisas em Dor Lombar
A terapia manual continua sendo uma das intervenções mais utilizadas no tratamento da dor lombar inespecífica. Manipulações, mobilizações e técnicas de tecidos moles fazem parte da rotina de fisioterapeutas, osteopatas e outros profissionais da saúde em todo o mundo.
Mas existe uma pergunta que raramente é feita:
Como sabemos se a terapia manual realmente funcionou?
À primeira vista, a resposta parece simples: basta medir a dor.
No entanto, a realidade é muito mais complexa.
A dor lombar é uma condição multifatorial, que afeta não apenas a intensidade da dor, mas também a capacidade funcional, a participação social, a qualidade de vida, a confiança para se movimentar e diversos outros aspectos da vida do paciente.
Foi justamente essa questão que motivou o estudo "Assessing the impact of manual therapy in the management of nonspecific low back pain: a scoping review of the outcomes used in clinical trials".
Em vez de perguntar se a terapia manual funciona, os autores fizeram uma pergunta diferente e extremamente relevante:
Quais desfechos estão sendo utilizados pelos pesquisadores para avaliar os efeitos da terapia manual na dor lombar inespecífica?
Embora pareça uma questão metodológica, a resposta tem implicações diretas para a prática clínica.
O problema das pesquisas em terapia manual
Ao analisar diferentes ensaios clínicos sobre terapia manual, percebe-se rapidamente uma dificuldade.
Cada estudo mede resultados diferentes.
Alguns avaliam apenas a intensidade da dor.
Outros investigam incapacidade funcional.
Há pesquisas que medem amplitude de movimento, força muscular, qualidade de vida, satisfação do paciente, retorno ao trabalho, consumo de medicamentos ou alterações psicológicas.
Essa enorme diversidade dificulta comparar estudos entre si.
Imagine dois ensaios clínicos avaliando exatamente a mesma técnica.
Um conclui que o tratamento foi eficaz porque reduziu a dor.
O outro afirma que não houve benefício porque a função não melhorou.
Quem está certo?
Talvez ambos.
Eles simplesmente utilizaram desfechos diferentes.
O que é um desfecho clínico?
Na pesquisa científica, desfecho é qualquer variável utilizada para medir o efeito de uma intervenção.
Na dor lombar, alguns exemplos incluem:
- intensidade da dor;
- incapacidade funcional;
- mobilidade;
- qualidade de vida;
- retorno ao trabalho;
- satisfação do paciente;
- uso de analgésicos;
- medo do movimento;
- percepção global de melhora.
A escolha do desfecho determina, em grande parte, como os resultados serão interpretados.
Como o estudo foi realizado?
Os autores realizaram uma Scoping Review, um tipo de revisão que busca mapear o conhecimento disponível sobre determinado tema.
Diferentemente de uma revisão sistemática, cujo objetivo é calcular o efeito de uma intervenção, a revisão de escopo procura identificar padrões, lacunas e tendências da literatura científica.
Os pesquisadores reuniram ensaios clínicos envolvendo terapia manual para dor lombar inespecífica e analisaram quais desfechos eram utilizados para medir os resultados.
O objetivo não era dizer qual técnica funciona melhor.
Era compreender como a eficácia vem sendo avaliada.
Dor continua sendo o principal desfecho
O levantamento mostrou que a intensidade da dor permanece sendo o desfecho mais frequentemente utilizado.
Escalas como:
- Escala Visual Analógica (EVA);
- Escala Numérica de Dor (NRS).
aparecem na maioria dos estudos.
Isso não surpreende.
A dor costuma ser o principal motivo que leva o paciente a procurar atendimento.
Entretanto, os autores destacam que reduzir dor não significa necessariamente restaurar função.
Incapacidade funcional também recebe grande atenção
Outro grupo importante de desfechos envolve a função.
Entre os instrumentos mais utilizados destacam-se:
- Oswestry Disability Index (ODI);
- Roland-Morris Disability Questionnaire (RMDQ).
Esses questionários avaliam o impacto da dor lombar sobre atividades da vida diária.
Para muitos pacientes, conseguir voltar a trabalhar, brincar com os filhos ou praticar atividade física é mais importante do que reduzir alguns pontos na escala de dor.
Isso reforça uma ideia central da reabilitação moderna:
O sucesso do tratamento não deve ser medido apenas pela intensidade da dor.
Outros desfechos aparecem com menor frequência
O estudo também encontrou avaliações relacionadas a:
- amplitude de movimento;
- qualidade de vida;
- retorno às atividades;
- satisfação com o tratamento;
- percepção global de melhora;
- fatores psicossociais;
- medo do movimento;
- cinesiofobia;
- uso de medicamentos.
Embora menos frequentes, esses desfechos oferecem uma visão muito mais abrangente da recuperação do paciente.
A grande heterogeneidade dificulta comparar pesquisas
Talvez esse seja o principal resultado da revisão.
Os autores identificaram enorme variabilidade entre os estudos.
Além de utilizarem desfechos diferentes, muitos pesquisadores aplicavam instrumentos distintos para medir exatamente o mesmo fenômeno.
Por exemplo, enquanto alguns utilizavam a EVA para dor, outros empregavam a NRS.
Para incapacidade, alguns optavam pelo ODI, enquanto outros utilizavam o Roland-Morris.
Essa falta de padronização dificulta:
- comparar estudos;
- realizar metanálises;
- elaborar diretrizes clínicas;
- estimar o verdadeiro efeito da terapia manual.
O paciente melhora apenas porque a dor diminuiu?
Essa talvez seja uma das reflexões mais importantes trazidas pelo estudo.
Imagine dois pacientes.
O primeiro continua relatando dor moderada, mas voltou a trabalhar, pratica atividade física e recuperou sua qualidade de vida.
O segundo refere pouca dor, mas permanece afastado do trabalho e evita qualquer movimento por medo.
Quem evoluiu melhor?
Se olharmos apenas a escala de dor, talvez escolhamos o segundo.
Mas, considerando a funcionalidade e a participação social, provavelmente o primeiro apresentou uma recuperação muito mais significativa.
Isso mostra como limitar a avaliação apenas à dor pode oferecer uma visão incompleta da realidade clínica.
O que isso significa para o fisioterapeuta e o osteopata?
Na prática clínica, ainda é comum perguntar apenas:
"De zero a dez, quanto está sua dor?"
Embora essa informação seja importante, ela está longe de ser suficiente.
Uma avaliação completa deve incluir aspectos como:
- função;
- capacidade física;
- objetivos individuais;
- confiança para se movimentar;
- qualidade de vida;
- participação nas atividades cotidianas;
- satisfação do paciente.
A reabilitação moderna busca melhorar pessoas.
Não apenas reduzir números em uma escala.
O futuro da pesquisa em terapia manual
Os autores defendem que futuras pesquisas utilizem conjuntos padronizados de desfechos (Core Outcome Sets).
Essa estratégia permitiria que diferentes estudos avaliassem os mesmos resultados utilizando instrumentos semelhantes.
Como consequência, seria possível:
- comparar pesquisas com maior precisão;
- fortalecer revisões sistemáticas;
- produzir recomendações clínicas mais confiáveis;
- compreender melhor quais pacientes realmente se beneficiam da terapia manual.
A padronização metodológica representa um passo importante para o amadurecimento da pesquisa em reabilitação.
A grande mensagem
O estudo "Assessing the impact of manual therapy in the management of nonspecific low back pain: a scoping review of the outcomes used in clinical trials" nos lembra que avaliar um tratamento é muito mais do que medir dor.
A recuperação de um paciente envolve movimento, função, autonomia, participação social e qualidade de vida.
Para o osteopata e o fisioterapeuta moderno, essa mensagem é especialmente importante.
A terapia manual pode ser uma ferramenta valiosa.
Mas seu sucesso não deve ser medido apenas pelo alívio imediato da dor.
O verdadeiro objetivo da reabilitação é devolver ao paciente a capacidade de viver, trabalhar, praticar esportes, brincar com os filhos e realizar suas atividades com confiança.
Porque, no fim das contas, pacientes não procuram atendimento apenas para sentir menos dor.
Eles procuram atendimento para recuperar suas vidas.
Referência
Bisegna P, Testa M, Rossettini G, et al. Assessing the impact of manual therapy in the management of nonspecific low back pain: a scoping review of the outcomes used in clinical trials. Archives of Physiotherapy. 2025.
Prof Leonardo Nascimento, Ft Msc DO PhD
Fisioterapeuta
Osteopata
Pós-graduado em Fisioterapia Ortopédica e Desportiva pela UNICID/SP
Especialista em Terapia Manual e Postural pela Cesumar/PR
Especialista em Osteopatia pela Universidade Castelo Branco/RJ
Osteopata Certificado pela Escola de Madrid
Professor da Escola de Madrid Internacional
Mestre em Ciências da Reabilitação – USP
Diplomado em Osteopatia pela SEFO (Scientific European Federation Osteopaths)
Doutor em Neurociências e Comportamento - FMUSP
Estudioso da área de palpação e sensibilidade manual tátil no Laboratório de Fisioterapia e Comportamento na Universidade de São Paulo – USP
Colaborador do DO-Touch (American Osteopathic Association)
Coordenador de Grupos de Pesquisa da Escola de Madrid Internacional
Host do Podcast Osteopatia Científica
Revisor de Periódicos de Fisioterapia e Osteopatia
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