O Mito do “Encurtamento”: Por que Alongar Não Resolve Sua Dor

Você sente dor lombar.
Ou dor cervical.
Ou posterior de coxa.

Alguém avalia, faz um teste rápido de flexibilidade e sentencia:

“Está encurtado.”

E a solução?

“Vamos alongar.”

Simples. Lógico. Tradicional.
Mas… cientificamente frágil.

A ideia de que dor musculoesquelética é causada por “músculos encurtados” é uma das explicações mais difundidas — e menos sustentadas — da prática clínica contemporânea.

Vamos organizar isso com base na evidência.

O que realmente é encurtamento muscular?

Encurtamento estrutural verdadeiro acontece em situações específicas:

  • Imobilização prolongada

  • Lesões neurológicas

  • Fibrose

  • Pós-operatórios com retração cicatricial

  • Contraturas estabelecidas

Esses casos envolvem alterações morfológicas reais do tecido muscular e conjuntivo.

Mas no paciente comum com dor lombar inespecífica?

A maioria não apresenta evidência de encurtamento estrutural clinicamente relevante.

A limitação de movimento observada nesses pacientes está muito mais associada a:

  • Aumento de tônus protetor

  • Medo de movimento

  • Alteração de controle motor

  • Sensibilização central

e não a uma redução anatômica do comprimento muscular.

Alongamento aumenta comprimento ou tolerância?

Um dos achados mais consistentes da literatura é que o ganho de amplitude após alongamento não ocorre, majoritariamente, por aumento estrutural do músculo.

Estudos mostram que o principal mecanismo é o aumento da tolerância ao alongamento — uma adaptação neural, não morfológica.

Magnusson et al. (1996, 1997) demonstraram que ganhos de flexibilidade estão mais relacionados à alteração da percepção de desconforto do que a mudanças viscoelásticas permanentes no tecido.

Freitas e Mil-Homens (2015), em revisão sistemática, reforçam que o aumento da amplitude após programas de alongamento está associado principalmente a adaptações neurais.

Ou seja:

O músculo não “desencurta”.
O sistema nervoso passa a tolerar maior alongamento.

Isso muda completamente a narrativa clínica.

 Alongamento reduz dor?

A literatura mostra que o alongamento pode ter efeitos pequenos a moderados na dor — mas não superiores a outras formas de exercício.

Uma revisão sistemática de Afonso et al. (2021) sugere que o alongamento isolado apresenta benefícios limitados quando comparado a intervenções ativas mais abrangentes.

Em dor lombar, Hayden et al. (2021), na revisão Cochrane sobre exercício terapêutico, demonstram que programas gerais de exercício são eficazes, mas não há evidência robusta de que o componente “alongamento isolado” seja determinante.

Além disso, não há evidência consistente de que indivíduos com dor apresentem menor flexibilidade do que indivíduos assintomáticos.

Dor não é sinônimo de encurtamento.

Dor é um fenômeno multifatorial

Explicar dor como consequência direta de “músculo curto” é um reducionismo biomecânico.

A dor musculoesquelética envolve:

  • Processamento central

  • Expectativas e crenças

  • Fatores psicossociais

  • Contexto

  • Sensibilização periférica e central

Bialosky et al. (2009) propõem um modelo neurofisiológico para intervenções manuais e exercícios, destacando que muitos efeitos terapêuticos ocorrem via modulação do sistema nervoso — e não por alterações estruturais diretas.

Quando dizemos ao paciente que ele está “encurtado”, frequentemente reforçamos uma narrativa estrutural simplista que pode:

  • Aumentar dependência de intervenção passiva

  • Reduzir autoeficácia

  • Limitar a compreensão da dor

 Então devemos parar de alongar?

Não.

Mas precisamos parar de justificar alongamento com base em um mito estrutural.

Alongamento pode ser útil:

  • Como estratégia de exposição ao movimento

  • Como ferramenta de modulação sensorial

  • Como parte de um programa ativo

  • Para melhorar conforto temporário

O problema não é alongar.

O problema é acreditar que estamos “corrigindo encurtamentos causadores de dor” na maioria dos casos.

Conclusão

A ideia de que dor musculoesquelética é causada por encurtamento muscular generalizado não encontra suporte robusto na literatura contemporânea.

O ganho de amplitude após alongamento é predominantemente neural, não estrutural.

E a dor é muito mais complexa do que um músculo “curto”.

Se queremos praticar uma reabilitação madura, precisamos abandonar explicações simplistas e abraçar modelos baseados em evidência.

A pergunta não é:

“Está encurtado?”

A pergunta correta é:

“O que está mantendo essa dor ativa?”

E quase nunca a resposta é apenas comprimento muscular.

Referências

  • Magnusson SP, Simonsen EB, Aagaard P, Dyhre-Poulsen P, McHugh MP, Kjaer M. Mechanical and physical responses to stretching with and without pre-isometric contraction in human skeletal muscle. Arch Phys Med Rehabil. 1996.

  • Magnusson SP, Simonsen EB, Aagaard P, Kjaer M. Biomechanical responses to repeated stretches in human hamstring muscle in vivo. Am J Sports Med. 1996.

  • Freitas SR, Mil-Homens P. Effect of stretching on range of motion: systematic review and meta-analysis. Scand J Med Sci Sports. 2015.

  • Afonso J, et al. The acute and chronic effects of stretching on performance and injury risk: a systematic review. Sports Med. 2021.

  • Hayden JA, et al. Exercise therapy for chronic low back pain. Cochrane Database Syst Rev. 2021.

  • Bialosky JE, Bishop MD, George SZ. The mechanisms of manual therapy in the treatment of musculoskeletal pain. Man Ther. 2009.


Prof Leonardo Nascimento, Ft Msc DO PhD
Fisioterapeuta
Osteopata
Pós-graduado em Fisioterapia Ortopédica e Desportiva pela UNICID/SP
Especialista em Terapia Manual e Postural pela Cesumar/PR
Especialista em Osteopatia pela Universidade Castelo Branco/RJ
Osteopata Certificado pela Escola de Madrid
Professor da Escola de Madrid Internacional
Mestre em Ciências da Reabilitação – USP
Diplomado em Osteopatia pela SEFO (Scientific European Federation Osteopaths)
Doutor em Neurociências e Comportamento - FMUSP
Estudioso da área de palpação e sensibilidade manual tátil no Laboratório de Fisioterapia e Comportamento na Universidade de São Paulo – USP
Colaborador do DO-Touch (American Osteopathic Association)
Coordenador de Grupos de Pesquisa da Escola de Madrid Internacional
Host do Podcast Osteopatia Científica
Revisor de Periódicos de Fisioterapia e Osteopatia

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