O que ACONTECE no seu corpo quando você recebe um "Estalo"?

 “Doutor, pode estalar aí! Meu vizinho falou que isso coloca a vértebra no lugar!”

Essa é uma das frases mais ouvidas por quem trabalha com terapia manual. Mas será que o famoso “estalo” — ou, como alguns preferem chamar, manipulação articular de alta velocidade — realmente recoloca vértebra no lugar? Spoiler: não. Mas calma, não vá cancelar sua sessão de hoje ainda. Vamos explicar o que realmente acontece.

💥 O “estalo” é um barulho, não um milagre

O som característico que você escuta durante uma manipulação articular é chamado de “cavitação”. Trata-se da liberação rápida de gases (como nitrogênio e dióxido de carbono) no líquido sinovial dentro da articulação. Quando há uma separação rápida entre as superfícies articulares, forma-se uma bolha de gás que implode, gerando o “pop”.

Ou seja: o estalo é apenas um efeito sonoro biomecânico. Ele não recoloca ossos, não alinha nada mágico, e muito menos “libera energia acumulada”.

🧠 Efeitos neurofisiológicos (e não estruturais)

Estudos apontam que os benefícios imediatos da manipulação não vêm de um suposto “realinhamento”, mas de alterações no sistema nervoso:

  • Modulação da dor: Há liberação de opioides endógenos e ativação de vias inibitórias descendentes (Bialosky et al., 2009; 2010).

  • Melhora do controle motor: Pode ocorrer aumento de força e ativação muscular por curto prazo (Niazi et al., 2015).

  • Redução da sensibilização periférica e central: Por meio da modulação do input aferente espinal.

Mas atenção: esses efeitos são transitórios, geralmente com duração entre minutos e algumas horas. Por isso, quando o paciente diz que “saiu zerado, mas no dia seguinte voltou tudo”, ele não está inventando — está apenas vivendo o que a neurofisiologia já explicou.

🦴 E as vértebras tortas?

A ideia de “vértebras fora do lugar” é um mito antigo e biologicamente implausível. Nenhuma vértebra “sai do lugar” em uma pessoa que está caminhando, sentada ou te contando a história. Se estivesse fora mesmo, ela estaria na emergência neurológica e não no consultório esperando uma “liberação energética”.

🚩 E os riscos?

Embora raros, há riscos associados à manipulação cervical — como dissecções arteriais e AVC. A literatura não define com clareza a causalidade direta, mas há casos documentados. Por isso, a triagem clínica e o raciocínio crítico são fundamentais.

A boa prática não é decidir entre “manipular ou não”, mas sim em quem, quando e por que manipular — com base em evidência, necessidade clínica e segurança do paciente.

✅ O que isso muda na sua prática?

  • Eduque seu paciente: O barulho não significa “colocar no lugar”. Explique os mecanismos reais.

  • Evite a “dependência da manipulação” — o paciente precisa entender que não é o estalo que o cura, e sim um processo de reabilitação estruturado.

  • Integre com exercício, educação e estratégias ativas. Manipulação pode ser útil, mas não deve ser a estrela principal do show.

Referências

  • Bialosky JE, Bishop MD, George SZ. Spinal manipulative therapy for low back pain: a physiological perspective. J Orthop Sports Phys Ther. 2009;39(7):370–379.

  • Bialosky JE, et al. The mechanisms of manual therapy in the treatment of musculoskeletal pain: a comprehensive model. Man Ther. 2009;14(5):531–538.

  • Niazi IK, et al. Changes in H-reflex and V-waves following spinal manipulation. J Manipulative Physiol Ther. 2015;38(8):677–692.

  • Ernst E. Adverse effects of spinal manipulation: a systematic review. J R Soc Med. 2007;100(7):330–338.

Prof  Leonardo  Nascimento, Ft  Msc  DO  PhD
Fisioterapeuta
Osteopata
Pós‑graduado em Fisioterapia Ortopédica e Desportiva pela UNICID/SP
Especialista em Terapia Manual e Postural pela Cesumar/PR
Especialista em Osteopatia pela Universidade Castelo Branco/RJ
Osteopata Certificado pela Escola de Madrid
Professor da Escola de Madrid Internacional
Mestre em Ciências da Reabilitação – USP
Diplomado em Osteopatia pela SEFO (Scientific European Federation Osteopaths)
Doutor em Neurociências e Comportamento - FMUSP
Estudioso da área de palpação e sensibilidade manual tátil no Laboratório de Fisioterapia e Comportamento na Universidade de São Paulo – USP
Colaborador do DO‑Touch (American Osteopathic Association)
Coordenador de Grupos de Pesquisa da Escola de Madrid Internacional
Host do Podcast Osteopatia Científica
Revisor de Periódicos de Fisioterapia e Osteopatia

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