A Verdade Inconveniente sobre a Liberação Miofascial: O que você realmente está “liberando”?
“Preciso liberar essa fáscia.”
Se você atua na área musculoesquelética, já ouviu — ou disse — essa frase inúmeras vezes.
A narrativa é sedutora:
A fáscia estaria “aderida”, “colada”, “endurecida” ou “travada”.
E com técnicas manuais específicas, rolos, bolas ou instrumentos metálicos, você iria “liberar” esse tecido.
Mas a pergunta incômoda é:
O que exatamente está sendo liberado?
A fáscia realmente “cola”?
A fáscia é um tecido conjuntivo complexo, altamente inervado e com propriedades viscoelásticas. Ela envolve músculos, vísceras, nervos e vasos.
Sim, ela pode sofrer alterações estruturais em contextos específicos como:
Fibrose pós-cirúrgica
Cicatrização patológica
Processos inflamatórios severos
Imobilização prolongada
Mas na imensa maioria dos pacientes com dor musculoesquelética inespecífica, não há evidência de “aderências fasciais generalizadas” que possam ser manualmente desfeitas.
A força necessária para deformar permanentemente tecido conjuntivo denso é muito maior do que aquela aplicada em técnicas manuais convencionais.
Estudos biomecânicos sugerem que a carga aplicada durante liberação miofascial manual está muito abaixo do limiar necessário para provocar mudanças estruturais permanentes no tecido (Chaudhry et al., 2008).
Em outras palavras:
Você não está “quebrando aderências”.
Você não está “separando camadas coladas”.
Então por que o paciente melhora?
Porque o mecanismo não é estrutural.
É neurofisiológico.
Assim como ocorre com manipulações vertebrais, os efeitos da liberação miofascial parecem envolver:
Modulação do sistema nervoso central
Alteração na percepção de dor
Redução temporária de hipersensibilidade
Mudança na representação corporal
A literatura atual aponta que intervenções manuais produzem efeitos por meio de:
Ativação de vias inibitórias descendentes
Alterações na excitabilidade medular
Modulação de processamento cortical
Bialosky et al. (2009) propõem um modelo neurofisiológico abrangente para terapia manual, no qual os efeitos clínicos são explicados por mudanças na resposta neural — e não por alterações mecânicas diretas.
O mito da “desidratação fascial”
Outro argumento comum é que a fáscia estaria “desidratada” e que a pressão manual ajudaria a “reorganizar o colágeno” ou “reidratar o tecido”.
Mas não há evidência convincente de que a aplicação manual consiga reorganizar permanentemente a matriz extracelular ou alterar a arquitetura do colágeno de forma clinicamente relevante em sessões convencionais.
A reorganização tecidual ocorre em escalas biológicas mais complexas, envolvendo:
Carga mecânica sustentada
Processos celulares
Remodelação ao longo de semanas
Não em 90 segundos de pressão sustentada.
E o foam roller?
O foam roller tem evidência razoável para:
Aumentar amplitude de movimento
Reduzir percepção de dor muscular tardia
Melhorar sensação de mobilidade
Mas, novamente, os mecanismos parecem estar ligados à tolerância ao alongamento e modulação sensorial — não à “quebra de aderências”.
Cheatham et al. (2015) demonstram que os efeitos são predominantemente neuromodulatórios.
O risco da narrativa errada
O maior problema da liberação miofascial não é a técnica.
É a explicação.
Quando dizemos ao paciente que ele está “todo colado por dentro”, reforçamos uma narrativa estrutural frágil que pode:
Aumentar medo
Reduzir autoeficácia
Criar dependência terapêutica
Promover modelo passivo de tratamento
E isso é clinicamente perigoso.
Então devemos abandonar a técnica?
Não necessariamente.
A liberação miofascial pode ser útil como:
Ferramenta de modulação da dor
Estratégia de exposição ao toque
Preparação para exercício ativo
Intervenção complementar em plano multimodal
Mas precisamos abandonar a fantasia de que estamos “liberando tecidos colados”.
O que estamos realmente “liberando” é:
A percepção de rigidez
A sensibilidade aumentada
A resposta protetora do sistema nervoso
E isso é diferente de alterar estrutura.
Conclusão
A verdade inconveniente é simples:
Você não está desfazendo aderências generalizadas.
Você não está reorganizando colágeno com as mãos.
Você não está separando camadas fasciais coladas.
Você está modulando o sistema nervoso.
E isso não diminui o valor da técnica — desde que você explique corretamente o que está acontecendo.
A maturidade clínica começa quando abandonamos explicações mágicas e abraçamos mecanismos plausíveis.
Referências
Chaudhry H, Schleip R, Ji Z, Bukiet B, Maney M, Findley T. Three-dimensional mathematical model for deformation of human fasciae in manual therapy. J Am Osteopath Assoc. 2008.
Bialosky JE, Bishop MD, George SZ. The mechanisms of manual therapy in the treatment of musculoskeletal pain. Man Ther. 2009.
Cheatham SW, Kolber MJ, Cain M, Lee M. The effects of self-myofascial release using a foam roller on range of motion and performance: a systematic review. Int J Sports Phys Ther. 2015.
Schleip R, Findley TW, Chaitow L, Huijing PA. Fascia: The Tensional Network of the Human Body. Elsevier. 2012.
Prof Leonardo Nascimento, Ft Msc DO PhD
Fisioterapeuta
Osteopata
Pós-graduado em Fisioterapia Ortopédica e Desportiva pela UNICID/SP
Especialista em Terapia Manual e Postural pela Cesumar/PR
Especialista em Osteopatia pela Universidade Castelo Branco/RJ
Osteopata Certificado pela Escola de Madrid
Professor da Escola de Madrid Internacional
Mestre em Ciências da Reabilitação – USP
Diplomado em Osteopatia pela SEFO (Scientific European Federation Osteopaths)
Doutor em Neurociências e Comportamento - FMUSP
Estudioso da área de palpação e sensibilidade manual tátil no Laboratório de Fisioterapia e Comportamento na Universidade de São Paulo – USP
Colaborador do DO-Touch (American Osteopathic Association)
Coordenador de Grupos de Pesquisa da Escola de Madrid Internacional
Host do Podcast Osteopatia Científica
Revisor de Periódicos de Fisioterapia e Osteopatia
Comentários
Postar um comentário