Afinal, Como a Terapia Manual Funciona? Uma Revisão de 62 Estudos de Revisão Revela o Que Sabemos — e o Que Ainda Não Conseguimos Explicar
Durante décadas, a terapia manual foi ensinada a partir de explicações predominantemente biomecânicas.
Manipulávamos uma vértebra porque ela estaria fora do lugar.
Mobilizávamos uma articulação porque ela estaria bloqueada.
Aplicávamos técnicas miofasciais porque os tecidos estariam aderidos.
E, quando o paciente melhorava, concluíamos que havíamos corrigido o problema.
Mas existe uma pergunta que deveria acompanhar qualquer intervenção terapêutica:
Como sabemos que o mecanismo que utilizamos para explicar a melhora foi realmente o responsável pelo resultado?
Nos últimos anos, a neurociência, a imunologia e a fisiologia começaram a modificar nossa compreensão sobre os possíveis mecanismos da terapia manual.
Hoje sabemos que o toque e a aplicação de forças mecânicas podem provocar respostas em diferentes sistemas do organismo.
Mas isso significa que finalmente descobrimos como a terapia manual funciona?
Em março de 2025, Keter e colaboradores publicaram na revista PLOS ONE o artigo “The mechanisms of manual therapy: A living review of systematic, narrative, and scoping reviews”.
O trabalho reuniu 62 revisões científicas que investigaram diferentes respostas fisiológicas associadas à aplicação de terapia manual.
Os resultados são interessantes.
Mas também são um alerta para todos os profissionais que utilizam manipulações, mobilizações e técnicas de tecidos moles.
A terapia manual pode produzir respostas em diferentes sistemas fisiológicos, mas ainda não sabemos com segurança quais dessas respostas são responsáveis pelos benefícios clínicos observados.
E essa diferença é muito maior do que parece.
O que os pesquisadores fizeram?
Os autores realizaram uma revisão de revisões, também conhecida como overview.
Em vez de analisar exclusivamente ensaios clínicos individuais, reuniram revisões que já haviam investigado os mecanismos associados à terapia manual.
Foram pesquisadas quatro bases científicas:
MEDLINE;
CINAHL;
Cochrane Library;
PEDro.
O protocolo foi registrado previamente no PROSPERO, e a busca foi atualizada até setembro de 2024.
No total, 62 revisões foram incluídas.
O estudo reuniu revisões sistemáticas, narrativas e de escopo, abrangendo pesquisas com indivíduos sintomáticos, assintomáticos e modelos animais.
As intervenções investigadas incluíram:
manipulação articular;
mobilização articular;
massagem;
mobilização de tecidos moles;
técnicas de toque terapêutico.
Um detalhe metodológico merece atenção: o resumo e a descrição dos resultados apresentam 35 revisões sistemáticas, 24 narrativas e quatro de escopo, cuja soma é 63, embora o total informado seja 62. Essa inconsistência de relato não modifica necessariamente a conclusão principal, mas deveria ser esclarecida pelos autores.
O que significa uma living review?
Uma das características interessantes do artigo é sua proposta de atualização contínua.
O termo living review significa que a síntese foi concebida para incorporar novas evidências conforme elas forem publicadas.
Os autores propuseram atualizações semestrais por meio do Duke Center for Excellence in Manual and Manipulative Therapy.
Essa estratégia é particularmente útil em áreas nas quais novos estudos podem modificar rapidamente nossa compreensão dos mecanismos.
Entretanto, uma revisão viva não significa que suas conclusões sejam automaticamente mais confiáveis.
A qualidade depende dos estudos incluídos, dos métodos utilizados e da forma como os resultados são interpretados.
Atualizar frequentemente uma revisão não corrige os problemas metodológicos das pesquisas originais.
Os sete grandes grupos de mecanismos investigados
Os pesquisadores organizaram os possíveis mecanismos da terapia manual em diferentes domínios fisiológicos.
| Mecanismo | O que foi investigado |
|---|---|
| Biomecânico | Movimento dos tecidos, deformação e respostas mecânicas |
| Neurológico | Atividade e excitabilidade neural |
| Neurovascular | Respostas vasculares e autonômicas |
| Neuroimune | Mediadores inflamatórios e imunológicos |
| Neuroendócrino | Alterações hormonais |
| Neurotransmissores e neuropeptídeos | Substâncias envolvidas na sinalização neural |
| Neuromuscular | Ativação muscular e controle motor |
O estudo encontrou pesquisas sugerindo respostas em todos esses domínios.
Mas a qualidade das evidências variou consideravelmente.
E é aqui que a análise se torna realmente interessante.
O resultado mais importante: nem todos os mecanismos possuem o mesmo suporte científico
Os autores classificaram a qualidade metodológica das revisões utilizando ferramentas como AMSTAR 2 e ROBIS, quando aplicáveis.
O panorama apresentado foi o seguinte:
| Domínio | Qualidade metodológica das revisões que sustentavam os achados |
|---|---|
| Neurológico | Moderada |
| Neurovascular | Moderada |
| Neurotransmissores e neuropeptídeos | Moderada |
| Neuroimune | Baixa |
| Neuroendócrino | Baixa |
| Neuromuscular | Baixa |
| Biomecânico | Criticamente baixa |
Essas classificações são fundamentais.
Mas existe um cuidado adicional: a qualidade metodológica de uma revisão não equivale automaticamente à certeza de que determinado mecanismo causa melhora clínica.
Os autores não realizaram uma classificação GRADE da certeza global das evidências.
Portanto, a tabela descreve a robustez metodológica relativa das revisões que investigaram os diferentes domínios, e não uma hierarquia definitiva de mecanismos terapêuticos comprovados.
Mesmo assim, o resultado levanta uma questão importante.
As explicações biomecânicas tradicionais, frequentemente apresentadas como as mais concretas, foram justamente aquelas sustentadas pelas revisões de pior qualidade metodológica.
O problema das explicações biomecânicas
Historicamente, muitos modelos de terapia manual foram construídos sobre a ideia de que determinada técnica produziria uma correção mecânica específica.
Por exemplo:
“Essa manipulação reposiciona a vértebra.”
“Essa mobilização restaura o movimento normal do segmento.”
“Essa técnica rompe aderências fasciais.”
“Essa manipulação corrige uma disfunção articular.”
Mas existe uma diferença fundamental entre aplicar uma força mecânica e demonstrar que essa força produz uma correção estrutural específica e clinicamente relevante.
A aplicação de uma força pode produzir deformação, movimento e respostas teciduais.
Isso é fisicamente plausível.
Entretanto, demonstrar que essa deformação corresponde à correção de uma disfunção específica exige outro nível de evidência.
A revisão encontrou suporte metodológico criticamente baixo para o domínio biomecânico.
Isso não significa que forças mecânicas não atuem sobre os tecidos.
Seria absurdo concluir isso.
Significa que as evidências reunidas não oferecem uma sustentação robusta para transformar respostas biomecânicas em explicações causais específicas dos benefícios clínicos.
O famoso estalo não comprova uma correção
Esse ponto merece atenção especial.
Durante muito tempo, o som produzido durante uma manipulação vertebral foi interpretado como evidência de que alguma estrutura havia retornado à posição correta.
Mas o fenômeno acústico não demonstra reposicionamento vertebral.
O som pode estar relacionado a processos físicos intra-articulares, como a cavitação.
Portanto, ouvir um estalo não comprova que:
uma vértebra foi recolocada;
uma articulação foi desbloqueada;
uma disfunção específica foi corrigida;
o tratamento terá melhor resultado.
A revisão de Keter e colaboradores não foi desenhada para testar isoladamente todas essas afirmações, mas seus resultados reforçam a necessidade de abandonar explicações biomecânicas excessivamente precisas quando não existe evidência suficiente.
O som da manipulação não é um exame diagnóstico nem um indicador confiável de sucesso terapêutico.
E os mecanismos neurológicos?
Aqui encontramos um campo de investigação mais consistente do ponto de vista metodológico.
A revisão identificou estudos sobre respostas neurológicas associadas à terapia manual.
Entre as variáveis investigadas estavam alterações na atividade neural, excitabilidade e processamento de informações sensoriais.
Esses achados são coerentes com um princípio básico da neurofisiologia:
qualquer estímulo mecânico aplicado ao corpo pode gerar informações sensoriais processadas pelo sistema nervoso.
Portanto, não seria surpreendente que manipulações e mobilizações produzissem respostas neurais.
O problema é outro.
Essas respostas explicam a melhora clínica?
Essa pergunta continua sem uma resposta definitiva.
Alterar a atividade neural não significa tratar a causa da dor
Imagine que uma manipulação produza uma alteração mensurável na excitabilidade de determinado circuito neural.
Esse resultado pode ser real.
Pode ser reproduzível.
Pode representar uma resposta fisiológica interessante.
Mas ainda precisamos demonstrar que a alteração foi responsável pela redução da dor.
Essa distinção envolve três perguntas:
Primeira: a intervenção modifica determinado marcador fisiológico?
Segunda: essa modificação é específica da intervenção?
Terceira: essa modificação explica causalmente a melhora clínica?
Grande parte da pesquisa mecanística responde à primeira pergunta.
Alguns estudos começam a explorar a segunda.
Mas a terceira continua sendo um dos maiores desafios.
O sistema nervoso autônomo também responde?
Outro domínio investigado foi o neurovascular.
Esse grupo inclui respostas relacionadas à circulação, à atividade autonômica e a marcadores fisiológicos associados.
A revisão identificou evidências de qualidade metodológica moderada sobre a ocorrência de determinadas respostas neurovasculares.
Entretanto, isso não significa que a terapia manual produza uma regulação autonômica específica e previsível.
Por exemplo, observar uma mudança na variabilidade da frequência cardíaca após uma intervenção não demonstra automaticamente que houve estimulação seletiva do nervo vago.
Da mesma forma, uma alteração na condutância da pele não comprova que determinada região vertebral controla um órgão específico.
O organismo apresenta respostas autonômicas a diferentes estímulos:
movimento;
respiração;
toque;
exercício;
temperatura;
emoções;
expectativa.
Portanto, precisamos distinguir uma resposta autonômica ao estímulo de um mecanismo terapêutico autonômico específico.
São coisas diferentes.
E a neuroimunologia?
Esse é um dos campos mais interessantes e, ao mesmo tempo, mais vulneráveis a interpretações exageradas.
A revisão identificou pesquisas investigando alterações em mediadores inflamatórios e imunológicos após intervenções manuais.
Alguns resultados sugerem mudanças em substâncias associadas a processos inflamatórios e anti-inflamatórios.
Mas a qualidade metodológica das revisões que sustentavam esse domínio foi classificada como baixa.
Isso significa que precisamos de bastante cautela.
Uma alteração em uma citocina não demonstra automaticamente:
redução clinicamente relevante da inflamação;
regeneração tecidual;
reversão de fibrose;
melhora sustentada da dor;
eficácia de uma técnica específica.
Além disso, mediadores imunológicos podem desempenhar funções diferentes dependendo do tecido, da fase de recuperação e do contexto biológico.
Aumentar um marcador anti-inflamatório não é automaticamente sinônimo de melhorar a saúde do paciente.
A terapia manual libera endorfinas?
Outro domínio investigado envolve neurotransmissores e neuropeptídeos.
Os pesquisadores encontraram revisões sobre possíveis alterações em substâncias relacionadas à sinalização neural e à modulação da dor.
Esse é um mecanismo biologicamente plausível.
Mas precisamos evitar transformar plausibilidade em certeza.
Mesmo que determinada intervenção esteja associada à alteração de um mediador, isso não demonstra que ele seja o principal responsável pelo benefício clínico.
Para isso, seria necessário investigar a relação causal entre:
intervenção → alteração do mediador → mudança da dor → melhora funcional.
Sem demonstrar essa sequência, a explicação continua incompleta.
Portanto, dizer ao paciente que uma manipulação funciona porque “libera endorfinas” pode representar uma simplificação excessiva.
E os mecanismos neuroendócrinos?
A revisão também investigou alterações hormonais associadas à terapia manual.
Entre os marcadores discutidos na literatura estão substâncias relacionadas à resposta fisiológica ao estresse.
Entretanto, a qualidade metodológica das revisões nesse domínio foi baixa.
Além disso, medidas hormonais são influenciadas por inúmeros fatores.
O cortisol, por exemplo, apresenta variação circadiana e pode ser influenciado por sono, atividade física, contexto emocional e condições de coleta.
Portanto, uma alteração hormonal após uma intervenção não demonstra automaticamente que houve um efeito terapêutico específico.
Muito menos que o paciente apresentou uma “normalização hormonal”.
A terapia manual modifica a ativação muscular?
Outro mecanismo frequentemente utilizado para justificar intervenções manuais envolve mudanças na ativação muscular.
Por exemplo:
“Essa manipulação ativa o multífido.”
“Essa mobilização inibe o trapézio superior.”
“Essa técnica normaliza o recrutamento muscular.”
A revisão encontrou estudos sobre alterações neuromusculares, mas a qualidade metodológica das revisões que sustentavam esse domínio foi baixa.
Além disso, uma alteração imediata na atividade eletromiográfica não significa necessariamente melhora da função.
Um músculo pode apresentar maior ou menor atividade dependendo da tarefa, da velocidade, da carga e da estratégia motora.
Não existe uma única quantidade de ativação muscular ideal para todas as pessoas e situações.
Portanto, precisamos ter cuidado com o conceito de “normalizar” um músculo a partir de uma medida isolada.
O problema central: encontrar uma resposta não significa identificar o mecanismo terapêutico
Talvez essa seja a principal contribuição do artigo.
Os pesquisadores mostram que a terapia manual pode estar associada a diferentes respostas fisiológicas.
Mas a grande questão permanece:
Quais dessas respostas realmente explicam a melhora do paciente?
Imagine que, após uma manipulação, observamos:
redução da dor;
alteração da frequência cardíaca;
mudança na atividade muscular;
modificação de um marcador inflamatório;
alteração na excitabilidade neural.
O fato de tudo isso acontecer após a intervenção não significa que todas essas mudanças sejam responsáveis pela melhora.
Algumas podem ser consequências do estímulo.
Outras podem ser respostas paralelas.
Algumas podem não ter relevância clínica.
E outras podem participar efetivamente do benefício terapêutico.
Para diferenciar essas possibilidades, precisamos de estudos capazes de investigar mecanismos de mediação causal.
O que é um mediador de efeito?
Um mediador é uma variável que participa da cadeia causal entre uma intervenção e seu resultado.
Imagine que queremos demonstrar que a terapia manual reduz a dor porque modifica determinado mecanismo neural.
Precisaríamos demonstrar algo semelhante a:
Terapia manual → alteração neural → redução da dor.
Mas isso não basta como desenho teórico.
Seria necessário verificar se a alteração neural ocorre de maneira consistente, se precede o resultado clínico e se explica parte relevante do efeito observado, controlando explicações alternativas.
Esse tipo de investigação é muito mais exigente do que simplesmente medir um biomarcador antes e depois da intervenção.
A revisão destaca justamente a escassez de estudos capazes de estabelecer essa relação entre mecanismo e benefício clínico.
Uma crítica metodológica importante: a revisão mistura desenhos muito diferentes
Apesar de sua abrangência, o artigo apresenta limitações relevantes.
A primeira é a inclusão de diferentes tipos de revisões.
Uma revisão sistemática não possui necessariamente o mesmo rigor de uma revisão narrativa.
As revisões narrativas podem ser úteis para explorar hipóteses, mas são mais vulneráveis a seleção não sistemática da literatura e interpretações subjetivas.
Os autores avaliaram a qualidade metodológica e o risco de viés das revisões sistemáticas e de escopo.
Entretanto, não realizaram uma avaliação equivalente das revisões narrativas.
Isso cria uma assimetria importante.
Uma conclusão sustentada por uma revisão narrativa não deveria receber automaticamente o mesmo peso que uma conclusão derivada de uma revisão sistemática metodologicamente robusta.
Outra limitação: populações saudáveis e pacientes foram analisados no mesmo panorama
A revisão incluiu estudos com indivíduos assintomáticos, pacientes sintomáticos e modelos animais.
Isso é compreensível em uma investigação mecanística.
Entretanto, reduz a possibilidade de generalização clínica.
Uma resposta neural observada em uma pessoa saudável não necessariamente ocorrerá da mesma forma em alguém com dor lombar persistente.
Da mesma forma, uma alteração imunológica em um modelo animal não pode ser automaticamente extrapolada para pacientes humanos.
Esses estudos podem contribuir para compreender mecanismos.
Mas não demonstram, por si só, eficácia clínica.
O problema da heterogeneidade
Outro aspecto importante é a diversidade de intervenções.
A revisão reuniu estudos envolvendo manipulações, mobilizações, massagem e técnicas de tecidos moles.
Essas intervenções apresentam características mecânicas e sensoriais diferentes.
Além disso, os estudos utilizaram diferentes:
intensidades;
durações;
regiões corporais;
comparadores;
medidas fisiológicas;
populações.
Isso dificulta identificar mecanismos específicos para cada técnica.
Os próprios autores reconhecem que não procuraram diferenciar sistematicamente os mecanismos entre manipulação, mobilização e técnicas de tecidos moles.
Portanto, a revisão não permite afirmar:
“A manipulação produz determinado mecanismo, enquanto a mobilização produz outro.”
Esse nível de precisão não foi estabelecido.
Sessenta e duas revisões não significam sessenta e duas evidências independentes
Esse é outro cuidado importante ao interpretar uma revisão de revisões.
Diferentes revisões podem incluir os mesmos estudos primários.
Quando isso acontece, o mesmo experimento pode contribuir para múltiplas sínteses.
Portanto, o número de revisões não representa necessariamente a quantidade de evidências independentes.
A sobreposição entre estudos primários é um problema metodológico que merece atenção especial nesse tipo de pesquisa.
Não devemos confundir quantidade de publicações com robustez da evidência.
A revisão não realizou meta-análise
Os autores optaram por organizar e descrever os achados de maneira narrativa.
Não realizaram uma síntese quantitativa dos efeitos.
Isso significa que o estudo não fornece uma estimativa combinada respondendo:
Quanto a terapia manual modifica determinado mecanismo?
Também não estabelece:
magnitude média dos efeitos;
duração das respostas;
dose necessária;
consistência entre técnicas;
relação quantitativa com a melhora clínica.
Essa limitação é especialmente importante quando discutimos relevância clínica.
Uma alteração fisiológica pode ser estatisticamente detectável, mas pequena demais para produzir qualquer benefício significativo.
O que significa dizer que a terapia manual funciona?
Aqui precisamos separar duas perguntas que frequentemente são confundidas.
A terapia manual pode produzir benefícios clínicos?
Sim. Existem condições musculoesqueléticas nas quais determinadas intervenções manuais podem produzir benefícios, especialmente relacionados à dor e à função, dependendo da população, do comparador e do período de acompanhamento.
Mas essa afirmação precisa ser fundamentada em ensaios clínicos e revisões de eficácia específicos para cada condição.
A revisão de Keter e colaboradores não foi desenhada para estimar eficácia terapêutica.
Sabemos exatamente por que a terapia manual produz esses benefícios?
Não.
Esse é justamente o problema investigado.
Uma intervenção pode demonstrar algum benefício clínico mesmo quando seu mecanismo ainda não foi completamente esclarecido.
E uma intervenção pode produzir alterações fisiológicas interessantes sem apresentar benefício clínico relevante.
As duas situações são possíveis.
O risco de substituir o mito biomecânico por um mito neurofisiológico
Esse talvez seja o maior perigo na interpretação contemporânea da terapia manual.
Durante décadas, ouvimos:
“Essa técnica coloca a vértebra no lugar.”
Agora podemos ouvir:
“Essa técnica reorganiza o cérebro.”
Antes dizíamos:
“Essa manipulação desbloqueia a articulação.”
Agora dizemos:
“Essa manipulação normaliza a excitabilidade cortical.”
Antes:
“Essa liberação quebra aderências.”
Agora:
“Essa liberação modifica a resposta imunológica.”
Mas existe uma pergunta que permanece exatamente a mesma:
Qual evidência demonstra que esse mecanismo foi responsável pela melhora do paciente?
Se não conseguimos responder, apenas substituímos uma explicação excessivamente confiante por outra.
Mudamos o vocabulário.
Não necessariamente melhoramos o raciocínio.
O que o estudo muda na prática clínica?
A principal implicação é abandonar explicações excessivamente específicas quando não existe sustentação suficiente.
Isso não significa abandonar a terapia manual.
Significa utilizá-la dentro de um modelo mais realista.
Podemos considerar que as intervenções manuais produzem estímulos mecânicos e sensoriais capazes de desencadear respostas em diferentes sistemas.
Essas respostas podem interagir com:
expectativas;
experiências anteriores;
contexto terapêutico;
estado clínico;
características individuais;
movimento e atividade física.
Mas não precisamos afirmar que uma técnica corrige uma estrutura específica ou normaliza determinado circuito neural para justificar sua utilização.
A decisão clínica deve continuar baseada em:
benefícios demonstrados, segurança, preferências do paciente, objetivos funcionais e comparação com alternativas disponíveis.
A terapia manual como janela de oportunidade
Uma interpretação clínica possível é considerar a terapia manual como um recurso que pode facilitar temporariamente o movimento e a participação no tratamento.
Imagine um paciente com dor cervical que apresenta dificuldade para movimentar o pescoço.
Após uma mobilização, ele relata menos dor e consegue realizar movimentos com maior confiança.
Esse resultado pode ser clinicamente útil.
Mas não precisamos concluir que:
uma vértebra foi reposicionada;
um músculo foi inibido;
uma via neural específica foi ativada;
o sistema autonômico foi normalizado.
Podemos simplesmente reconhecer que houve uma resposta favorável e utilizar essa oportunidade para progredir o tratamento.
A partir daí, podemos trabalhar:
exercícios;
exposição gradual;
fortalecimento;
educação;
recuperação funcional;
autonomia.
Nesse modelo, a terapia manual não precisa ser apresentada como uma intervenção que corrige tudo.
Ela pode ser um componente de uma estratégia mais ampla.
O que ainda precisamos investigar?
Os autores destacam a necessidade de pesquisas que estabeleçam relações causais entre respostas fisiológicas e resultados clínicos.
Isso exige estudos que avaliem não apenas se uma técnica produz uma alteração, mas se essa alteração explica o benefício.
Também precisamos compreender se diferentes pacientes respondem por mecanismos distintos.
Por exemplo:
Pacientes com diferentes características de dor podem apresentar respostas neurofisiológicas diferentes à mesma intervenção?
Determinadas respostas podem ajudar a prever quem se beneficiará da terapia manual?
Existe uma dose de intervenção associada a maior benefício?
A mudança de determinado biomarcador está relacionada a melhora sustentada de função?
Essas perguntas são relevantes.
Mas ainda representam áreas de investigação, não ferramentas clínicas estabelecidas.
A grande mensagem
A revisão “The mechanisms of manual therapy: A living review of systematic, narrative, and scoping reviews”representa uma contribuição importante para compreender a complexidade das respostas fisiológicas associadas à terapia manual.
O estudo reuniu 62 revisões e identificou possíveis respostas em diferentes sistemas:
biomecânico;
neurológico;
neurovascular;
neuroimune;
neuroendócrino;
neuromuscular;
neurotransmissores e neuropeptídeos.
Entretanto, a qualidade metodológica das evidências variou de criticamente baixa a moderada.
As revisões que sustentavam os mecanismos biomecânicos apresentaram qualidade criticamente baixa, enquanto aquelas relacionadas a respostas neurológicas, neurovasculares e neurotransmissores apresentaram qualidade moderada.
Mais importante ainda:
a relevância clínica dessas respostas fisiológicas não foi adequadamente estabelecida.
Portanto, o estudo não demonstra que encontramos o mecanismo definitivo da terapia manual.
Também não demonstra que determinada manipulação produza uma resposta neural específica capaz de explicar a recuperação do paciente.
A conclusão cientificamente adequada é:
A terapia manual pode produzir respostas fisiológicas complexas em múltiplos sistemas, mas ainda existe incerteza importante sobre quais dessas respostas realmente mediam os benefícios clínicos observados.
Essa conclusão deveria mudar a maneira como ensinamos terapia manual.
Precisamos abandonar a ideia de que toda técnica possui um mecanismo exclusivo, perfeitamente conhecido e diretamente relacionado à estrutura tratada.
E precisamos evitar a tentação de utilizar a neurociência como uma nova justificativa universal.
Porque o maior avanço da terapia manual não será descobrir uma palavra mais sofisticada para explicar o que fazemos.
Será conseguir demonstrar, com estudos metodologicamente robustos, como, para quem e em quais condições nossas intervenções realmente produzem benefícios clínicos relevantes.
A terapia manual não precisa de explicações milagrosas.
Precisa de boas perguntas, pesquisas rigorosas e decisões clínicas fundamentadas.
A técnica pode funcionar. A explicação que damos para seu funcionamento pode estar errada.
E reconhecer essa diferença é um dos pilares da Fisioterapia Sem Achismo.
Referência científica
Keter DL, Bialosky JE, Brochetti K, Courtney CA, Funabashi M, Karas S, Learman K, Cook CE. The mechanisms of manual therapy: A living review of systematic, narrative, and scoping reviews. PLOS ONE. 2025;20(3).
DOI: https://doi.org/10.1371/journal.pone.0319586
Publicado em 18 de março de 2025.
Sobre o autor
Prof Leonardo Nascimento, Ft Msc DO PhD
Fisioterapeuta
Osteopata
Pós-graduado em Fisioterapia Ortopédica e Desportiva pela UNICID/SP
Especialista em Terapia Manual e Postural pela Cesumar/PR
Especialista em Osteopatia pela Universidade Castelo Branco/RJ
Osteopata Certificado pela Escola de Madrid
Professor da Escola de Madrid Internacional
Mestre em Ciências da Reabilitação – USP
Diplomado em Osteopatia pela SEFO (Scientific European Federation Osteopaths)
Doutor em Neurociências e Comportamento - FMUSP
Estudioso da área de palpação e sensibilidade manual tátil no Laboratório de Fisioterapia e Comportamento na Universidade de São Paulo – USP
Colaborador do DO-Touch (American Osteopathic Association)
Coordenador de Grupos de Pesquisa da Escola de Madrid Internacional
Host do Podcast Osteopatia Científica
Revisor de Periódicos de Fisioterapia e Osteopatia
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