Dentro do cérebro de um atleta de elite: o que a neurociência explica sobre a alta performance?

 O que separa um atleta de elite de uma pessoa comum?

Força? Velocidade? VO₂ máximo? Genética? Anos de treinamento?

Tudo isso pode participar da equação. Mas existe outra dimensão fascinante da alta performance: a maneira como o sistema nervoso aprende a perceber, decidir e executar movimentos em ambientes extremamente complexos e sob enorme pressão temporal.

Em uma revisão publicada na Nature Reviews Neuroscience, Yarrow, Brown e Krakauer analisaram o que diferentes áreas da neurociência poderiam explicar sobre o desempenho esportivo de alto nível.

E talvez a principal mensagem do artigo seja esta:

O atleta de elite não é simplesmente alguém que executa o mesmo movimento com maior perfeição. Ele se torna extremamente eficiente em encontrar soluções para atingir um objetivo.

O atleta não controla cada detalhe do movimento

Uma das ideias mais interessantes discutidas pelos autores é que movimentos altamente habilidosos não precisam apresentar exatamente a mesma trajetória em todas as execuções.

Existe variabilidade.

O que tende a permanecer extremamente preciso é aquilo que realmente importa para o objetivo da tarefa.

Imagine um jogador de tênis devolvendo um saque.

A posição exata do cotovelo, do ombro ou do punho pode variar discretamente entre tentativas. O que precisa ser extraordinariamente preciso é o resultado: colocar a bola no lugar certo, na velocidade certa e no momento certo.

Isso é compatível com modelos de optimal feedback control, ou controle ótimo por feedback.

O sistema nervoso não tenta eliminar toda variabilidade possível. Ele prioriza controlar as variáveis relevantes para o sucesso da tarefa.

Essa distinção é enorme para quem trabalha com movimento.

Talvez o movimento eficiente não seja necessariamente o movimento mais bonito, mais simétrico ou mais parecido com aquilo que o terapeuta considera "ideal".

É aquele capaz de resolver adequadamente o problema motor.

Anos de treinamento modificam o sistema nervoso

A expertise esportiva não aparece de uma hora para outra.

Ela é resultado de uma enorme quantidade de prática específica.

Ao longo desse processo, aprendizagem perceptiva e motora está associada a adaptações no sistema nervoso. A literatura discutida pelos autores aponta para mudanças estruturais em áreas sensoriais e motoras e para uma utilização funcional mais eficiente e focalizada dos recursos neurais.

Mas cuidado com uma interpretação muito comum nas redes sociais.

Isso não significa simplesmente que:

"O atleta usa menos o cérebro."

A interpretação é mais sofisticada.

Com a experiência, determinadas tarefas podem exigir uma organização neural diferente e, em alguns contextos, mais eficiente.

Aquilo que para um iniciante exige enorme atenção consciente pode tornar-se progressivamente mais automatizado no especialista.

O especialista não apenas reage. Ele antecipa.

Talvez essa seja uma das diferenças mais interessantes entre atletas experientes e iniciantes.

Em esportes rápidos, esperar para descobrir completamente o que aconteceu pode ser tarde demais.

Um goleiro não pode esperar a bola viajar metade do caminho para começar a decidir para onde irá.

Um tenista não pode esperar o saque chegar para decidir como devolver.

Um lutador não pode analisar conscientemente cada componente do movimento do adversário antes de responder.

O atleta experiente aprende a utilizar informações precoces.

Posição corporal.

Orientação dos segmentos.

Velocidade.

Trajetória.

Movimento preparatório.

Contexto.

Experiência acumulada.

Com essas informações, o cérebro constrói previsões sobre aquilo que provavelmente acontecerá em seguida.

É como se o especialista estivesse alguns milissegundos à frente da ação.

O cérebro trabalha com modelos preditivos

Os autores relacionam esse comportamento ao conceito de forward models, ou modelos internos preditivos.

Simplificando bastante, o sistema nervoso utiliza experiências anteriores e informações sensoriais para prever consequências futuras.

No esporte, isso pode incluir prever tanto as consequências das próprias ações quanto aquilo que o adversário provavelmente fará.

Quanto maior a experiência específica naquela tarefa, melhor pode se tornar a capacidade de extrair informação relevante do ambiente.

Por isso, simplesmente possuir reflexos rápidos não explica completamente a excelência esportiva.

Às vezes o atleta parece reagir mais rápido porque, na realidade, começou a preparar sua resposta antes.

O cérebro pode preparar várias possibilidades simultaneamente

Outro conceito interessante discutido no artigo é o chamado affordance competition hypothesis.

Imagine um jogador recebendo a bola.

Ele pode passar.

Finalizar.

Driblar.

Proteger a bola.

Recuar.

A visão tradicional poderia sugerir que primeiro ele escolhe conscientemente uma alternativa e depois o sistema motor prepara o movimento.

Modelos contemporâneos propõem algo mais dinâmico.

Diferentes possibilidades de ação podem começar a ser representadas simultaneamente em circuitos sensório-motores. Conforme novas informações aparecem, essas alternativas competem até que uma delas seja selecionada.

Decidir e preparar o movimento, portanto, podem não ser processos completamente separados.

No esporte de alto nível, isso é fundamental.

Porque não existe tempo para pensar:

"Opção A... não. Opção B... talvez. Opção C..."

O ambiente muda enquanto a decisão está sendo tomada.

Quando pensar demais piora o desempenho

Existe ainda um paradoxo fascinante.

Para desenvolver uma habilidade complexa, precisamos inicialmente prestar muita atenção ao movimento.

Mas depois de milhares de horas de treinamento, tentar controlar conscientemente aquilo que se tornou automatizado pode atrapalhar.

É o famoso fenômeno do choking under pressure.

O jogador domina determinado gesto há anos.

Chega a decisão.

Milhões assistindo.

E justamente naquele momento ele começa a pensar demais sobre aquilo que normalmente executaria automaticamente.

O controle consciente pode interferir em processos motores altamente treinados.

É aquela situação clássica:

"Como exatamente eu faço isso mesmo?"

E aquilo que acontecia naturalmente começa a desmoronar.

Isso ajuda a explicar por que treinamento esportivo não deveria desenvolver apenas execução técnica. Também precisa preparar o atleta para executar sob pressão, incerteza, distração e tomada rápida de decisão.

O que isso ensina para a reabilitação?

Aqui o artigo fica especialmente interessante para fisioterapeutas.

Se queremos devolver um atleta ao esporte, não basta devolver:

força,

amplitude de movimento,

potência,

ou ausência de dor.

O esporte exige muito mais.

Exige percepção.

Antecipação.

Tomada de decisão.

Adaptação.

Atenção dividida.

Resolução de problemas motores.

Execução sob pressão.

E tudo isso acontece em um ambiente imprevisível.

Um atleta pode apresentar excelentes resultados em testes físicos realizados em uma clínica silenciosa e ainda não estar preparado para aquilo que seu cérebro enfrentará durante uma competição.

Essa discussão ganhou ainda mais importância nos últimos anos, inclusive na literatura sobre retorno ao esporte após lesões.

Reabilitar não é ensinar um movimento perfeito

Existe outra consequência importante.

Se atletas de elite apresentam variabilidade enquanto preservam aquilo que é importante para atingir o objetivo, talvez devamos questionar nossa obsessão clínica por movimentos perfeitamente padronizados.

O joelho precisa estar exatamente naquele ângulo?

A escápula precisa seguir exatamente aquela trajetória?

O pé precisa tocar o chão exatamente daquela maneira?

Ou precisamos ensinar o sistema a encontrar soluções eficientes diante de diferentes demandas?

Variabilidade não é necessariamente erro.

Em determinadas circunstâncias, pode representar justamente a capacidade do sistema motor de adaptar-se.

O paciente não precisa necessariamente aprender uma única solução.

Ele precisa construir um repertório de soluções.

Mas existe uma limitação importante neste artigo

Apesar de extremamente interessante e publicado em uma das revistas mais importantes da neurociência, precisamos colocar o artigo em seu devido lugar.

Yarrow, Brown e Krakauer não realizaram um ensaio experimental demonstrando "como funciona o cérebro do atleta de elite".

Trata-se de uma revisão narrativa, publicada em 2009, na qual os autores aproximam estudos sobre expertise esportiva de modelos computacionais e neurofisiológicos derivados também de experimentos laboratoriais mais simples.

Os próprios autores apresentam essa aproximação como uma tentativa de compreender o desempenho esportivo utilizando conhecimentos provenientes da neurociência.

Portanto, é um artigo excelente para construir hipóteses e modelos conceituais.

Mas não devemos transformar cada mecanismo apresentado em uma verdade causal definitivamente demonstrada em atletas.

Essa diferença é fundamental.

Ciência não é pegar uma explicação interessante e transformá-la em certeza clínica.

Conclusão: o atleta de elite não tem apenas um corpo treinado

Talvez essa seja a mensagem mais interessante desse trabalho.

Quando assistimos a um atleta excepcional, estamos observando muito mais do que músculos fortes e articulações móveis.

Estamos observando anos de aprendizagem.

Um sistema perceptivo extremamente treinado.

Capacidade de antecipação.

Decisões realizadas em frações de segundo.

Movimentos automatizados.

Adaptação contínua ao ambiente.

E um sistema nervoso que aprendeu não necessariamente a executar um movimento perfeito, mas a encontrar soluções extraordinariamente eficientes para problemas extremamente difíceis.

Para a fisioterapia esportiva, isso traz uma provocação importante:

Se o esporte exige percepção, decisão e adaptação, por que tantas vezes nossa reabilitação termina em três séries de dez repetições realizadas em um ambiente completamente previsível?

Talvez retornar ao esporte não seja apenas recuperar o músculo.

É devolver ao atleta a capacidade de resolver problemas em movimento.

Referência principal

Yarrow K, Brown P, Krakauer JW. Inside the brain of an elite athlete: the neural processes that support high achievement in sports. Nature Reviews Neuroscience. 2009;10(8):585-596. doi:10.1038/nrn2672.

Prof. Leonardo Nascimento, Ft MSc DO PhD

Fisioterapeuta
Pós-graduado em Fisioterapia Ortopédica e Desportiva pela UNICID/SP
Especialista em Terapia Manual e Postural pela Cesumar/PR
Especialista em Osteopatia pela Universidade Castelo Branco/RJ
Osteopata Certificado pela Escola de Madrid
Professor da Escola de Madrid Internacional
Mestre em Ciências – USP
Diplomado em Osteopatia pela SEFO (Scientific European Federation Osteopaths)
Doutor em Neurociências e Comportamento – FMUSP
Pesquisador do CABSIN (Congresso Brasileiro de Saúde Integrativa)
Estudioso da área de palpação e sensibilidade manual tátil no Laboratório de Fisioterapia e Comportamento da Universidade de São Paulo – USP
Colaborador do DO-Touch – AOA (American Osteopathic Association)
Coordenador de Grupos de Pesquisas da Escola de Madrid Internacional
Host do Podcast Osteopatia Científica
Revisor de periódicos de Fisioterapia e Osteopatia

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