Guideline da American Osteopathic Association para Dor Lombar

Alguns profissionais de saúde ou pseudo-cientistas consideram que um guideline seja uma obrigatoriedade de ser seguido e caso o profissional não o faça ele está automaticamente realizando um tratamento sem eficácia comprovada ou não estará seguindo as recomendações quase que divinas de sua área, praticamente uma heresia!

Na verdade, os guidelines nada mais são do que recomendações de um grupo de profissionais da área ou de associações ou grupos de pesquisa sobre determinados temas ou seja, teremos excelentes guidelines e outros nem tanto.

Na verdade, um guideline pode e deve ser criticado da mesma forma que fazemos com artigos científicos, levando-se em conta o quanto as recomendações foram de fato embasadas em evidências e/ou o quanto essas informações são relevantes para a prática clínica.

A American Osteopathic Association (AOA) produziu um guideline para o tratamento de dor lombar em 2016 que foi publicado em sua própria revista, o JAOA.

O tratamento manipulativo osteopático (OMT) é uma modalidade distinta comumente usada por osteopatas para complementar o tratamento convencional de distúrbios músculo-esqueléticos, incluindo aqueles que causam dor lombar (LBP).

O OMT é definido no Glossário de Terminologia Osteopática como "A aplicação terapêutica de forças guiadas manualmente por um osteopata para melhorar a função fisiológica e / ou suportar a homeostase que foi alterada por disfunção somática.

A disfunção somática é definida como "função comprometida ou alterada de componentes relacionados do sistema somático (estrutura do corpo): estruturas esqueléticas, articulações e miofasciais e seus elementos vasculares, linfáticos e neurais relacionados. A disfunção somática é tratável usando o tratamento manipulativo osteopático.

Essas diretrizes atualizam as diretrizes AOA para que os osteopatas utilizem o OMT para pacientes com LBP aguda ou crônica não específica publicado em 2010 na National Guideline Clearinghouse.

Este processo de atualização começou com pesquisas bibliográficas que incluíam bancos de dados eletrônicos, contato pessoal com pesquisadores-chave de OMT e dor lombar e busca na Internet. No início do processo, a Força-Tarefa sobre as Diretrizes de Prática Clínica de dor lombar descobriu a revisão sistemática da literatura de 2014 realizada por Franke et al – já falamos aqui sobre a importância das revisões sistemáticas, lembra?

Este estudo serviu de base para essa diretriz atualizada e se baseia ainda mais na literatura utilizada para apoiar as diretrizes anteriores. Foram também incorporados resultados de outros estudos elegíveis publicados após os parâmetros de busca da revisão sistemática de Franke et al.

Os autores da revisão sistemática identificaram 307 estudos. Trinta e um foram avaliados e 16 foram excluídos. Dos 15 estudos incluídos na revisão, 6 foram  da Alemanha, 5 dos Estados Unidos, 2 do Reino Unido e 2 da Itália. Dois estudos adicionais publicados após a revisão Franke et al também foram incluídos.

O OMT reduz significativamente a dor e melhora o estado funcional em pacientes, incluindo mulheres grávidas e pós-parto, com LBP aguda e crônica inespecífica. Franke et al descobriram que, na LBP não específica crônica e aguda, evidências de qualidade moderada sugeriam que o OMT teve um efeito significativo no alívio da dor (diferença média [MD], -12,91; IC 95%, -20,00 a -5,82) e estado funcional (diferença de média padrão [SMD], -0,36; IC 95%, -0,58 a -0,14).

Mais especificamente, na LBP crônica não específica, a evidência sugeriu uma diferença significativa em favor da OMT em relação à dor (MD, -14,93; IC 95%, -25,18 a -4,68) e ao estado funcional (SMD, -0,32; IC 95%, - 0,58 a -0,07). Ao examinar a LBP inespecífica na gravidez, evidências de baixa qualidade sugeriram uma diferença significativa a favor da OMT para dor (MD, -23.01; IC 95%, -44.13 a -1.88) e estado funcional (SMD, -0.80; IC 95% -1,36 a -0,23).

Por outro lado, para o pós-parto LBP inespecífico, Franke et al descobriram que evidências de qualidade moderada sugeriam uma diferença significativa a favor da OMT para dor (MD, -41,85; IC 95%, -49,43 a -34,27) e estado funcional (SMD, -1,78; IC de 95%, -2,21 a -1,35).

As conclusões de Franke et al reforçam ainda mais os achados de que a OMT reduz a LBP. Em uma revisão sistemática de 2005 conduzida por Licciardone et al e a base das diretrizes de LBP publicadas em 2010, determinou-se que a OMT reduz a dor mais do que o esperado apenas com efeitos de placebo e esses resultados tiveram o potencial de durar além do primeiro ano de tratamento.

 Franke et al explicaram especificamente que os efeitos clinicamente relevantes da OMT foram encontrados para reduzir a dor e melhorar o estado funcional em pacientes com LBP aguda e crônica não específica e para LBP em mulheres grávidas e pós-parto 3 meses após o tratamento.

Ensaios controlados randomizados maiores com grupos de comparação robustos são necessários para validar ainda mais os efeitos de OMT em LBP.

Além disso, são necessárias mais pesquisas para compreender a mecânica da OMT e seus efeitos a curto e longo prazo, bem como a relação custo-eficácia desse tratamento.

Por Leonardo Nascimento, Ft Msc DO
Fisioterapeuta
Pós graduado em Fisioterapia Ortopédica e Desportiva pela UNICID/SP
Especialista em Terapia Manual e Postural pela Cesumar/PR
Especialista em Osteopatia pela Universidade Castelo Branco/RJ
Osteopata Certificado pela Escola de Madrid
Professor e Coordenador da Escola de Madrid
Mestre e Doutorando em Ciências da Reabilitação – USP
Diplomado em Osteopatia pela SEFO (Scientific European Federation Osteopaths)

É um estudioso da área de palpação e sensibilidade manual tátil no Laboratório de Fisioterapia e Comportamento na Universidade de São Paulo – USP



Bibliografia

American Osteopathic Association Guidelines for Osteopathic Manipulative Treatment (OMT) for Patients With Low Back Pain. J Am Osteopath Assoc. 2016 Aug 1;116(8):536-49.

Licciardone JC, Brimhall AK, King LN. Osteopathic manipulative treatment for low back pain: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. BMC Musculoskelet Disord. 2005 Aug 4;6:43.

 Franke H, Franke JD, Fryer G. Osteopathic manipulative treatment for nonspecific low back pain: a systematic review and meta-analysis. BMC Musculoskelet Disord. 2014 Aug 30;15:286.


Comentários

  1. Your article has piqued a lot of positive interest. I can see why since you have done such a good job of making it interesting. Osteopath in Sydney

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Alterações de Modic – a manipulação vertebral ajuda ou atrapalha?

Dor lombar crônica e disfunção somática - qual a correlação?

Terapia Craniosacral em Transtornos do Espectro do Autismo.