Osteopatia Craniana - em que ponto estamos?

                        Sempre que em algum lugar surge o assunto Osteopatia Craniana acontece o mesmo - uns encorajam sua prática e afirmam ter resultados clínicos e outros dizem em nome da ciência atual que não deve se praticá la por falta de embasamento, de ensaios clínicos controlados, de boas revisões sistemáticas com meta análise e afinal….

Em que ponto estamos?

Esse texto tem o intuito de esclarecer e demonstrar em que ponto estamos na pesquisa, na existência do mecanismo respiratório primário (MRP), nos estudos piloto, na confiabilidade intra e inter, tudo com a nossa visão da Osteopatia Científica ou seja, com a filosofia da Osteopatia e com a ciência atual.

O movimento craniano tem muitas explicações de várias maneiras. Uma delas baseia se nos movimentos de todas as estruturas corporais, o movimento da respiração, o peristaltismo, os batimentos cardíacos, as contrações e deslizamentos musculares, a circulação da linfa, a circulação do líquido cefalorraquidiano e com isso temos um movimento resultante de todos esses que acontece no corpo todo, esse movimento por coincidência, tem o mesmo ritmo que as ondas de Traube-Hering-Mayer.

Essa onda, foi mensurada em dois trabalhos de Nelson et al (2001). Em um trabalho foi comparada com o fluxo sanguíneo por um exame de Doppler e a movimentação de flexão extensão percebidos por osteopatas experientes e apresentou uma interessante coincidência entre o mecanismo respiratório primário e o comprimento dessas ondas.

Isso por si, não comprova a existência do MRP mas, indica que devemos investigar melhor essa relação e suas coincidências.

Por outro lado, Ferré et al (1990), fez uma publicação em que questiona se a osteopatia craniana é uma ilusão ou realidade? E afirma que o MRP é uma crença e que os ossos cranianos não tem mobilidade em suas articulações.

E ainda que o cérebro tem uma mobilidade natural comprovada pelos neurocirurgiões todos os dias porém, isso acontece somente devido ao sistema vascular cerebral e mais nada.

Pode se contestar um ou outro mas, alguém está certo ou estão ambos errados?

Um outro ponto importante quando fala se em Prática Baseada em Evidências (PBE) temos que levar em consideração alguns aspectos importantes. O que existe com o mais alto nível de evidência para a comprovação de determinados procedimentos são as revisões sistemáticas, que são baseadas em ensaios clínicos controlados e em uma relevância menor em estudos piloto. 

Temos aqui um estudo piloto de Duncan et al (2008) sobre a efetividade da osteopatia craniana e tensionamento miofascial comparados com acupuntura como tratamento complementar em crianças com paralisia cerebral.

Esse estudo teve muitos parâmetros analisados como desfechos das terapias, dentre eles o Gross Motor Function Measurement e Functional Independence Measure for Children foram os parâmetros que tiveram uma melhora significativa (P< 0.05). O primeiro analisa a função motora grossa e o segundo analisa a independência funcional da criança.

Isso nos mostra que temos um campo para iniciar uma pesquisa nessa área com resultados promissores e o estudo avaliou um total de 55 pacientes para encontrar esses resultados.

Um outro estudo piloto de Sandhouse et al (2010) correlacionou a osteopatia craniana com as funções visuais de alinhamento binocular e no campo visual em 29 indivíduos divididos em 2 grupos randomizados aleatóriamente e avaliados por examinadores cegos.

O grupo que recebeu o tratamento osteopático recebeu uma única correção craniana e o grupo controle (sham) um toque leve no mesmo local, sem correções.

O estudo concluiu que o grupo que recebeu o tratamento teve uma melhora nos parâmetros analisados que correspondem à funções visuais, como a acuidade visual à distância, na dilatação da pupila e na convergência ocular.

Quando falamos de Osteopatia Craniana envolve se diretamente a palpação que é a maneira de avaliar e de tratar os ossos cranianos levando se em consideração a sua mobilidade pequena nos diâmetros antero posterior e látero lateral durante o MRP.

Um estudo de Zegarra-Parodi et al (2009) verificou as diferentes pressões utilizadas por estudantes de osteopatia em uma metodologia de ensino específica na sutura frontomalar.

Os estudantes eram do quarto ano de formação e foram randomizados em 3 grupos - protocolo de treinamento padrão, controle (sem treinamento) e o outro grupo foram os sujeitos avaliados no estudo. O estudo utilizou medidores de pressão na pele sobre a sutura frontomalar esquerda e os estudantes foram orientados a realizar a palpação dessa sutura e os dados foram coletados em um computador para serem comparados.

Os resultados encontrados foi que a pressão média exercida pelos dois grupos não obteve diferença significativa nos grupos testados. O que nos leva a concluir que o treinamento ainda não é algo que conseguimos realizar com exatidão nas várias escolas de osteopatia que temos pelo mundo pois, os resultados desse estudo são compatíveis com os encontrados em outros estudos sobre treinamento de palpação.

E se não conseguimos ensinar a palpar corretamente, como conseguiremos palpar e replicar os procedimentos?
Dois pesquisadores italianos Bordoni e Zanier (2015) em um artigo sobre o legado de Sutherland - o pai da osteopatia craniana - e suas atualidades na osteopatia moderna afirma que o MRP assim como a mobilidade das suturas neurocranianas e viscerocranianas são um fenômeno instrínseco e fundamental para  todos os seres vivos, e é indepente do ritmo cardíaco e do movimento respiratório da caixa torácica. A sincondrose esfenobasilar é o pilar desse movimento.

Quando compara os conceitos de Sutherland com as pesquisas científicas atuais o artigo percebe que os conceitos e o legado de Sutherland ainda são aplicáveis ao modelo de osteopatia craniana moderna.


Percebe se que temos muitas possibilidade de pesquisas a serem realizadas na área porém, também deve se levar em consideração o treinamento de palpação para que primeiro consigamos ter a  percepção do MRP.

O MRP existe? Cada vez mais as pesquisas nos levam a crer que sim porém, como sentí lo? E como interferir em seu funcionamento?


Bibliografia


J Am Osteopath Assoc. 2001 Mar;101(3):163-73. Cranial rhythmic impulse related to the Traube-Hering-Mayer oscillation: comparing laser-Doppler flowmetry and palpation. Nelson KE1, Sergueef N, Lipinski CM, Chapman AR, Glonek T.

J Am Osteopath Assoc. 2001 Mar;101(3):163-73. Cranial rhythmic impulse related to the Traube-Hering-Mayer oscillation: comparing laser-Doppler flowmetry and palpation. Nelson KE1, Sergueef N, Lipinski CM, Chapman AR, Glonek T.

Actual Odontostomatol (Paris). 1990 Sep;44(171):481-94.[Cranial osteopathy, delusion or reality?].
[Article in French]Ferré JC1, Chevalier C, Lumineau JP, Barbin JY.

J Am Osteopath Assoc. 2008 Oct;108(10):559-70. Effectiveness of osteopathy in the cranial field and myofascial release versus acupuncture as complementary treatment for children with spastic cerebral palsy: a pilot study. Duncan B1, McDonough-Means S, Worden K, Schnyer R, Andrews J, Meaney FJ.

J Am Osteopath Assoc. 2010 Apr;110(4):239-43. Effect of osteopathy in the cranial field on visual function--a pilot study. Sandhouse ME1, Shechtman D, Sorkin R, Drowos JL, Caban-Martinez AJ 3rd, Patterson MM, Shallo-Hoffmann J, Hardigan P, Snyder A.

J Am Osteopath Assoc. 2009 Feb;109(2):79-85. Cranial palpation pressures used by osteopathy students: effects of standardized protocol training. Zegarra-Parodi R1, de Chauvigny de Blot P, Rickards LD, Renard EO.


Adv Mind Body Med. 2015 Spring;29(2):15-21. Sutherland's Legacy in the New Millennium: The Osteopathic Cranial Model and Modern Osteopathy. Bordoni B, Zanier E.




Por Leonardo Nascimento

Leonardo Nascimento, Ft Msc ETM DO
Fisioterapeuta pela UNICID/SP
Pós graduado em Fisioterapia Ortopédica e Desportiva pela UNICID/SP
Especialista em Terapia Manual e Postural pela Cesumar/PR
Especialista em Osteopatia pela Universidade Castelo Branco/RJ
Osteopata Certificado pela Escola de Madrid
Mestre e Doutorando em Ciências da Reabilitação – USP
Diplomado em Osteopatia pela SEFO (Scientific European Federation Osteopaths)




É um estudioso da área de palpação e sensibilidade manual tátil no Laboratório de Fisioterapia e Comportamento na Universidade de São Paulo – USP

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